Claudia Raia estreia seu espetáculo musical 'Pernas pro Ar'

Com cenário virtual, atriz visita 17 capitais como mulher cujas pernas ganham vida e saem em busca de aventura

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

04 de dezembro de 2009 | 04h00

Claudia Raia em cena do musical 'Pernas Pro Ar', que tem argumento de Luis Fernando Verissimo: 'queria falar sobre o universo feminino e o chamei para escrever', conta a atriz. Fotos: Gui Paganini/Divulgação e Valéria Gonçalves/AE

 

SÃO PAULO - Helô é uma dona de casa como muitas outras, que ama seu marido e vai tocando a vidinha. Mesmo um tanto entediada, não busca mudanças radicais, ao contrário, as teme. Até o dia em que suas pernas se revoltam e partem em busca de aventuras, à sua revelia e para seu desespero. Esse é o mote do espetáculo musical Pernas pro Ar, protagonizado por Claudia Raia que estreia nesta sexta, 4, no Teatro Bradesco para uma temporada de apenas duas semanas.

 

Numa cena, ela dialoga com as pernas que respondem com sons executados pela orquestra; num outro, uma animação faz com que elas dancem, autônomas, numa espécie de moldura em torno do palco, efeito possível graças à sofisticada tecnologia utilizada, que propicia cenografia virtual, projetada em 3 dimensões, por 9 projetores e 12 computadores. Num país onde poucos são os teatros equipados tecnicamente para receber grandes produções, Claudia Raia construiu uma caixa cênica a ser instalada sobre o palco, suprimindo o problema da ausência de recursos.

 

Tudo porque ela sonhou, desde o início, bater ainda mais pernas do que sua personagem. Depois de ter passado por Ribeirão Preto e Recife, o musical estreia em São Paulo, e segue para Porto Alegre ainda este ano. Ao todo, Pernas pro Ar vai viajar por 17 capitais. Terá ainda sessões ao ar livre e de graça - a Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, e Belém do Pará, às margens do Amazonas, estão entre as já planejadas para o próximo ano.

 

"É loucura fazer turnê com tal produção. São três carretas de 30 metros, 25 pessoas no palco, tenho uma orquestra em cena, nenhum som é playback, são 50 pessoas ao todo viajando. É absurdo, mas estou feliz porque acho que abro caminho para mostrar que é difícil, caro, mas possível excursionar com musicais", diz Claudia Raia em conversa ao Estado, no início desta semana.

 

Ela conta que a ideia surgiu de um sonho, no qual como um caracol carregava uma caixa cênica, o seu próprio palco, pelas estradas. Assim começou a tomar forma o espetáculo. "Queria falar sobre o universo feminino, chamei Luis Fernando Verissimo para escrever. Conheço a qualidade de seu humor e sei que ele é apaixonado por musicais, sabe tudo. Seria perfeito. Mas estava muito ocupado escrevendo seu romance. Daí escreveu o argumento e Marcelo Saback os diálogos." Não por acaso, o sonho é o ponto de partida da trama. Helô recebe em seu quarto a visita do Diabo (Oswaldo Romano) e ele adverte: se não ousar agora, aos 40 anos, vai para o inferno, lugar de gente sem graça.

 

Repertório tem hits e canções de musicais famosos, nas versões de Bibi Ferreira, Zé Rodrix e Sylvia Massari. Foto: Gui Paganini/Divulgação

 

"Ele então toca nela e diz: siga suas pernas. E elas ganham vida própria. Ela se torna uma mulher dividida, com medo daquelas pernas, que passam a entrar em musicais e a se envolver em aventuras. O tom é de comédia, claro, mas com um humor embasado, interessante. Quem não quer sonhar, ousar, viver coisas nunca vividas? É muito legítimo esse desejo." Mas a situação não é. Helô quer livrar-se de sua ‘maldição’ e, para tanto, apela ao Diabo e a Deus, indo até à igreja. Ali vai receber conselhos de um trio inusitado, as Senhoras de Aparecida, Fátima e Guadalupe, em carne, osso e voz, pois cantam You Could Drive a Person Crazy, canção do musical Company. Na versão de Sylvia Massari, Aparecida canta: "Eu levo o Brasil nas costas/ sei lidar com confusão."

 

Dois consagrados atores de musicais, Marcos Tumura e Ruben Gabira, têm participação especial no elenco de nove atores. "Tumura começou comigo, veio atuar em Splish Splash, morou na minha casa, sinto-me mãe artística dele. Cameron (Mackintosh, produtor da Broadway), disse que Tumura foi o melhor Jean Valjean (personagem de Les Miserables) que ele já viu. É uma emoção esse reencontro. Gabira é outro parceiro de anos, mora na Áustria, faz operetas lá, assim como Alonso Barros, meu coreógrafo." A direção musical é de Paulo Nogueira e Claudia fala muito sobre a experiência de sua equipe.

 

Causa estranhamento a presença na direção de Cacá Carvalho? Ele foi o Macunaíma na encenação de Antunes Filho, e é ator e diretor prestigiado na chamada cena experimental. "Ele é um amigo, um artista de carreira internacional, atuou no centro de pesquisa do Grotowski. A gente riu muito porque ele perguntava: o que é play off? É um rabicho musical de ligação, a canção anterior repetida em outro andamento anunciando o que vem. Quem conhece musicais sabe. Ele não sabia. Mas eu queria isso, gosto disso, uma visão diferente, que sai do formato, dos truques. Óbvio, não fugimos à linguagem, mas há algo de diferente no palco."

 

No repertório, hits e canções de musicais famosos, nas versões de Bibi Ferreira, Zé Rodrix e Sylvia Massari. O site do MinC informa que a montagem tem custo em torno de R$ 2 milhões, aprovados para captação na Lei Rouanet, outro tanto para a itinerância. "Como contrapartida, em cada cidade, um ensaio é aberto a estudantes, seguido da exibição do making of e palestras. "A indústria do entretenimento é a terceira maior do mundo, mas ainda não há investidores no Brasil. É questão de tempo, acredito nisso."

 

Pernas pro Ar. Teatro Bradesco. Rua Turiassu, 2.100, 3.º andar, 3670-4141, Bourbon Shopping. 5.ª a sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 50/ R$ 200. Até 12/12

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