Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Claudia Cardinale participa da Mostra de Cinema em São Paulo

Em entrevista, a atriz fala sobre a carreira e os grandes nomes com que trabalhou

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

01 de novembro de 2012 | 02h10

Mesmo admitindo que não é nostálgica nem vive no passado, Claudia Cardinale não se furta a falar sobre os grandes diretores com quem trabalhou - e o maior deles, Luchino Visconti. Confirma a história que a roteirista Suso Cecchi D'Amico havia contado ao repórter. Claudia começou em 1958, com Mario Monicelli (Os Eternos Desconhecidos). Em 1960, quando fizeram Rocco e Seus Irmãos, Visconti já tinha planos futuros para ele. Na cena em que os irmãos Parondi brigam na rua, após a primeira vitória de Simone (Renato Salvatori), o diretor, com o megafone na mão, comandava a cena e gritava "Non ammazzare la Cardinale".

Não toquem na Cardinale. Nos anos seguintes, Luchino, como ela o chama, lhe ofereceu papéis cada vez maiores em O Leopardo e Vagas Estrelas da Ursa. "Esse último produziu um escândalo ao passar em Veneza, menos pelo tema do Holocausto ou pela adaptação de Electra do que pelo detalhe de tratar de incesto. Fomos amantes no filme, meu irmão e eu. Ele era Jean Sorel, um deus de belo. A terra tremeu."

A última frase não deixa de conter uma referência ao mais famoso filme neorrealista de Visconti - La Terra Trema, de 1948. Eles ainda fizeram mais um filme juntos. "Foi só um pequeno papel, um, camelô. Faço a mãe dele em Violência e Paixão." Visconti não era só o grande artista com quem ela trabalhava. Era também um amigo. "Saímos muito para jantar e sempre havia um pacotinho no prato de sobremesa. E eram joias caras. Ele vivia me agradando." Co0mo era o método do diretor? "Luchino dirigia teatro e cinema. Era tudo a mesma coisa para ele. El e sabia exatamente o que queria e sabia exatamente como levar a gente a reagir como ele esperava."

Além dos clássicos de Visconti, Claudia teve muitos grandes papéis. Foi a musa de Federico Fellini em Oito e Meio. "Anos mais tarde, quando encontrei Woody Allen, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, todos me disseram que aprenderam a amar o cinema por meio dos filmes que eu havia feito com aqueles mestres italianos que foram os mestres deles, também." Claudia guarda belas lembranças de outros diretores que talvez não sejam tão conhecidos ou apreciados pelos cinéfilos. "La Ragazza di Bube, que fiz com Luigi Comencini, é uma obra-prima, um capolavoro. Contracenava com George Cha\kiris, um papel muito dramático e ele havia acabado de ganhar o Oscar de coadjuvante pelo musical Amor Sublime Amor, West Side Story." Da sua extensa produção com Mauro Bolognini, o diretor com quem mais filmou - depois de Pasquale Squittieri, pai de seu filho -, conserva um carinho especial por O Belo Antônio.

"Marcello (Mastroianni) fazia um impotente, imagine. Como no livro, os sicilianos achavam absurda a ideia de que um deles pudesse ser impotente." E ela dá aquela gargalhada maravilhosa de Angelica Sedara na cena do jantar de O Leopardo. O curioso é que, mais de meio século depois de seu começo, e tendo feito tantos filmes decisivos, ela admite que ainda treme no início de uma filmagem. "É como se fosse a primeira vez." Agora mesmo fez na Tunísia um filme sobre um par de gays. O garoto é seu filho e inicia-se com o jardineiro. "No início, a mãe explode, mas termina aceitando. Vivi toda a minha vida cercada de gays geniais. Luchino, Mauro (Bolognini). Estranho muito quando, ainda hoje, em países como a Tunísia, encontro pessoas que querem negar o homossexualismo. Prestigio as paradas gays e as lésbicas, sempre me reconhecem como alguém que luta contra o preconceito."

Claudia filmou duas vezes no Brasil. Primeiro com Franco Rossi, que fez Uma Rosa com Amor, baseado em Uma Rosa para Todos. "Fazia uma carioca, sambista. Tinha sete amantes, um para cada dia da semana", diz, e conta nos dedos. Sambava no pé? "Sim, aprendi." E ainda se lembra? "Não, mas na minha casa, em Paris, tenho umas colunas na sala. Ainda me arrisco a me pendurar naquelas colunas, dançando." Sua outra aventura brasileira é o cultuado Fitzcarraldo, que Werner Herzog filmou na Amazônia. "Lá estávamos na floresta, eu contracenando com Jason Robards, que subiu numa árvore e disse que não ia descer de lá se não trouxessem seu steak de Nova York." Ela já conhecia o ator norte-americano de Era Uma Vez no Oeste. "Ele saiu dali direto numa ambulância para a clínica psiquiátrica. Entrou no seu lugar Klaus Kinski, piu matto ancora, mais louco ainda." E o diretor, não era louco também? "Era também, mas era um louco com método. Era o seu processo criativo", ela diz.

Há 25 anos, Claudia mora na capital francesa, mas permanece essencialmente uma moça com a valise. La Ragazza com la Valigia - chamava-se assim o filme que fez com Valerio Zurlini, no começo dos anos 1960. "Estou sempre de malas prontas. Quando crianças, dizia que queria ser exploradora. O cinema, de alguma forma me permitiu realizar meu sonho." Com ela não tem essa coisa de "método", como ocorre com certos grandes atores norte-americanos. Eles permanecem no personagem durante todo o tempo da filmagem. Não Claudia. "Para mim, o importante sempre foi servir ao personagem sem deixar de ser eu mesma. Diante da câmera, sou a personagem. O diretor ou diretora grita 'Corta!' e eu volto a ser Claudia." Tem filmado com veteranos como Manoel de Oliveira e Fernando Trueba (O Artista e a Modelo), mas ultimamente deu de amadrinhar novos talentos. "Em geral, eles não têm dinheiro e é bom que gente como eu lhes dê apoio." No Rio, onde veio mostrar O Artista e a Modelo, Trueba disse ao repórter que Claudia é uma fonte inesgotável de histórias.""Quando ela começa a contar histórias dos grandes diretores com quem trabalhou, não para", disse. Ela retruca que, afinal, conheceu todas essas pessoas e elas foram importantes. " justo compartilhar com quem se interessa pelo assunto."

O repórter pergunta que lembranças guarda de Richard Brooks, com quem fez o western Os Profissionais. "Richard era um sujeito sedutor e o filme tinha todos aqueles astros. Burt (Lancaster), Lee (Marvin) e os outros. Foi uma filmagem muito dura no deserto e ele dizia que eu havia me comportado melhor que os homens." Cada história é sempre acompanhada pelo riso rouco. Pouco antes de iniciar a entrevista, ela havia feito uma pausa para fumar. O cigarro é um vício do qual não abre mão. "E o chocolate", ela franze os ombros, como criança pega em flagrante. Como mantém a forma? "É genético, o legado de meus pais. Nunca fiz lifting, não é agora que vou começar. E como feito um passarinho, sempre fui assim." Admite que não lê muito, ou que lê bem menos do que gostaria. "A maioria são scripts que seguem me enviando." Embora não possa dizer sim a todos, Claudia, como boa cigana, não pretende parar de filmar. "Tudo o que quero é seguir com minha vida de andarilha."

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