Clássicos regionais saem em DVD

Na sua Introdução ao Cinema Brasileiro, Alex Viany fala nos surtos regionais que irromperam pelo País, nos anos 1920, e ajudaram a formatar, pela via da diversidade, a própria identidade cinematográfica nacional. Em épocas mais recentes, críticos e historiadores preferem definir esses "surtos" como ciclos. Pipocaram em Cataguases, no interior de Minas, no Recife e em Campinas, no interior de São Paulo. Houve antes o ciclo de Pelotas, no Rio Grande do Sul, mas não se sabe bem por que certos historiadores tendem a negligenciar a contribuição de pioneiros como o gaúcho Francisco Santos e, depois dele, ainda no Rio Grande, Eduardo Abelim (que virou personagem de ficção em Sonho sem Fim, de Lauro Escorel).Dois importantes lançamentos em DVD resgatam essas importantes etapas da construção histórica do cinema brasileiro. São contribuições da Funarte, com os selos do Ministério da Cultura e da Secretaria do Audiovisual: Humberto Mauro e Ciclo do Recife. O primeiro chama-se Humberto Mauro e, a rigor, não tem mais ligação com o ciclo de Cataguases, quando Mauro começou a dirigir filmes considerados clássicos como Tesouro Perdido, Brasa Dormida e Sangue Mineiro, todos preparatórios da sua obra-prima, Ganga Bruta. O Mauro resgatado pelo DVD da Funarte é o dos curtas da série Brasilianas, inspirados por canções populares como Chuá-Chuá e Casinha Pequenina, Azulão e Pinhal. Esses são filmes dos anos 1940 e pertencem à fase da passagem de Mauro pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo, o Ince, que ele ajudou a criar com Roquete Pinto.Mauro fez mais de 300 curtas documentários, científicos e poéticos no Ince. O DVD resgata suas obras mais conhecidas dos anos 1950 e 60: Engenhos e Usinas, Cantos do Trabalho, Manhã na Roça, Meus Oito Anos, O João de Barro, A Velha a Fiar e Carro de Bois. Como bônus, o DVD oferece uma entrevista que Mauro deu em 1977, no quadro das comemorações dos seus 80 anos. Mauro foi uma figura extraordinária. Definia o cinema como cachoeira e dizia, singelamente, que quem vê uma cachoeira sente a irresistível vontade de filmá-la. O cinema, para ele, era cachoeira, mas é preciso ir além dessa metáfora um tanto esquemática.Autor prolífico ? Numa cachoeira, a água jorra com ímpeto, num movimento que tende a ser perpétuo. Mauro tinha esse ímpeto da cachoeira. Ele filmou muito: curtas e longas, documentários e ficções. Em todos esses trabalhos deixou impressa uma marca, um toque que sempre identifica o autor. E Mauro fez sempre parte do mundo. Sua trajetória é oposta à de outro mito dos tempos heróicos do cinema brasileiro. Mário Peixoto fez um só filme ? o mitológico Limite ? e depois encerrou-se no seu sítio do Morcego. Peixoto trouxe para o contexto do País as pesquisas da vanguarda européia, Mauro fez cinema de raiz. Não cabe aqui dizer quem foi o melhor, embora represente alguma coisa o fato de que o mineiro Mauro e não o cosmopolita Peixoto tenha sido escolhido como patrono do Cinema Novo pelos próprios diretores que ajudaram a mudar a face do cinema no Brasil, nos anos 1960, com seu movimento estético-social.E há o DVD sobre o ciclo do Recife, que inclui dois filmes: Aitaré da Praia, de Gentil Roiz, e A Filha do Advogado, de Jota Soares, ambos de 1926. O do Recife foi o mais longo e também o mais prolífico dos ciclos regionais. Durou de 1922 a 1931. Produziu 13 títulos ficcionais, com enredo, e vários documentários. A figura considerada mais importante do ciclo do Recife é Edson Chagas, que descobriu o cinema no Rio e, de volta a Pernambuco, resolveu iniciar a produção cinematográfica local. Para atingir seu objetivo, Chagas ligou-se justamente a Roiz, que possuía uma câmera de segunda mão. A parceria entre ambos, que deflagra o ciclo do Recife, começa com um filme rodado em 1923, para a empresa Aurora, que faliu em seguida. Retribuição foi escrito e dirigido por Roiz, Chagas foi o diretor de fotografia.Trabalhavam só nos fins de semana, enfrentando todo tipo de dificuldade ? desde a falta de dinheiro até os problemas técnicos. Retribuição estreou só em 1925. No ano seguinte, Roiz dirige justamente Aitaré da Praia. Se no filme anterior predominava um modelo "americano", calcado no gosto pelas peripécias das produções ainda incipientes de Hollywood, em Aitaré da Praia acentua-se o traço regional. O filme conta a história de um pescador que ascende na hierarquia social, mas não consegue esquecer a amada, uma moça simples (pobre?) da região. Ela é interpretada por Almeri Steves, que foi a grande estrela do ciclo do Recife, tendo aparecido em quatro dos 13 filmes produzidos na época, na capital pernambucana. Almeri está também em Retribuição, por exemplo.Mas a verdadeira "superprodução" do ciclo recifense foi A Filha do Advogado, que começou a ser dirigido por Ary Severo, com quem Almeri se casou. Ele foi substituído por Jota Soares, que também faz um dos principais papéis. A estrela agora é Guiomar Teixeira. Faz a jovem que é levada a julgamento por ter matado, em defesa da honra, o boêmio que tentava abusar dela. Não sabe que ele era seu irmão. O que faz desse filme até hoje um marco é o lado documentário, integrado à ficção, com cenas de ruas que revelam muito sobre a Recife da época. Como extra, o DVD traz depoimento de Alexandre Figueirôa sobre o Ciclo do Recife, ajudando a entender as circunstâncias em que foram produzidos esses filmes.Humberto Mauro e Ciclo do Recife. Lançamentos em DVD da Funarte. À venda nas locadoras e lojas especializadas por R$ 30 cada.

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