Clássicos em gestação

As críticas comprovam: enquanto alguns discos nascem fundamentais, outros precisam aguardar um tempo para ter sua grandeza reconhecida

EDMUNDO LEITE, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2012 | 03h10

A notinha de pé de página publicada em agosto começou enfática, mas optou por um aposto cautelar: "A maior revelação de intérpretes masculinos da nossa música popular em 1958 é, até o momento, o cantor João Gilberto".

Se havia alguém que pudesse superar o cantor baiano nos meses que restavam daquele ano de felicidades, ninguém sabe. "João Gilberto é um dos mais musicais de nossos cantores populares, predicado que compensa amplamente o seu pequeno volume de voz", escreveu no ano seguinte, já sem receio, o redator anônimo na apresentação do LP Chega de Saudade.

Quase 30 anos depois, acompanhando o aumento de volume das obras, o anúncio das novidades musicais viria em chamada de capa e página inteira no caderno de cultura em junho de 1986. "Cabeça Dinossauro, terceiro LP dos Titãs, chega às lojas com uma certeza: é grande surpresa do ano. Um disco nervoso, punk, chocante."

Se nos dois casos a grandeza das obras dos artistas foi percebida logo após o nascimento (leia trechos das críticas ao lado e leia a integra em acervo.estadao.com.br), nem todos dos 30 álbuns que concorrem na votação promovida pelo Caderno2+Música e a Rádio Eldorado FM para escolher o melhor disco brasileiro de todos os tempos tiveram boa recepção quando foram lançados.

Fruto Proibido, de Rita Lee, foi apedrejado sem dó por Maurício Kubrusly, no Jornal da Tarde em 1975: "Rita gravou outro LP. Antes fosse um compacto". Para o crítico, apenas Dançar para Não Dançar e Ovelha Negra se salvavam. "Porém, ainda é pouco, seria relaxamento demais se contentar com a desordem ruidosa da maioria dos acompanhamentos, com a falta de expressividade das vocalizações", continuou. Para terminar, o hoje repórter do Fantástico cravou o último prego. "Uma produção adequada para os fãs do gênero hippie de butique."

Três anos antes, o disco de estreia de Raul Seixas, Krig-Há-Bandolo, havia sido recebido no mesmo tom. Já o outro maluco do pedaço, Tim Maia, foi saudado em 1970 num texto de Carlos Vergueiro pela sua interpretação de Primavera, junto com outras nove músicas que considerava as melhores daquele ano. "Bravos aos autores, intérpretes, arranjadores dessas dez músicas, que fizeram sucesso em 70 e vão ficar para sempre em nosso cancioneiro popular."

Djavan também teve seu Luz, de 1982, exaltado: "Traz o que seu título sugere: um brilho aos ouvidos e aos olhos. Traz o que há, na opinião dos críticos, de mais vanguardista na música brasileira".

Mas nem sempre os radares estavam ligados para detectar algo de excepcional. Cinema Transcendental, de Caetano Veloso, foi apresentado sem detalhamentos. Informando que o trabalho homenageava vários artistas, o pequeno texto limitou-se a dizer que se travava de "um trabalho simples em seus arranjos, feitos de maneira quase artesanal pelo próprio Caetano e sua banda".

Roberto Carlos foi outro gigante que não mereceu muitas linhas sobre seu fundamental disco de 1971. Mas pelo menos o que foi dito no balanço do ano era inquestionável: "Roberto Carlos pode ser colocado, sem favor, entre os melhores intérpretes da música brasileira".

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