Clássicos do cinema brasileiro

Novamente aquele momento maravilhoso de Cosi fan Tutte, de Mozart, que Schlesinger usou em Domingo Maldito, agora em Questão de Imagem, de Agnès Jaoui, que revi pela TV Cultura. Além dela ainda ter colocado um Monteverdi e, naturalmente, Schubert, paixão dos diretores franceses. Não que ela seja uma fanática só da música erudita. Agnes é também magnífica cantora pop. Quando o cineasta brasileiro vai ter essa finesse, essa abertura estética, libertar-se de sua fixação só pela MPB?

Gilberto Mendes, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2011 | 00h00

Pensava em tudo isso aí enquanto caminhava com os pés na água gelada do mar, neste mês de julho santista. Também porque passava em frente ao nosso Cinearte, que tem o charme de ser talvez o único cinema do mundo na praia, direto sobre a areia. Seu diretor e programador, meu amigo Nivio, poderia estar chateado comigo porque ainda não falei da música no cinema brasileiro. Ele é um grande defensor de nosso cinema, além de muito bom alaudista, um expert na música renascentista. Essas combinações raras existem, podem crer!

Naquele momento reconheci uma falta minha. Precisava urgentemente falar de Lina Chamie e seu maravilhoso Via Láctea. Um filme que mais parecia europeu, sem as eternas favelas, problemas sociais, enfim um filme urbano, que São Paulo merecia. Finalmente o planeta Sampa, dentro de sua via láctea, seu trânsito cósmico. E com a extraordinária música de César Franck. É muito charme de Lina pensar nesse refinadíssimo compositor para um filme brasileiro. São poucos outros exemplos que possamos dar de tal requinte, tal sensibilidade no uso da imagem e do som, visando sua identificação espiritual. Podem me dizer que se trata de música belga, não brasileira. Mas estamos tratando da música em geral, no cinema brasileiro. Sejamos cidadãos do mundo, música é uma linguagem universal. A francesa Agnes usou música de dois austríacos em seu filme, Mozart e Schubert. E nessa linha internacionalista temos o caso interessante de Walter Moreira Salles, que foi buscar na Alemanha o compositor Junger Knieper, que escrevera a impressionante música de Asas do Desejo, de Wim Wenders, para compor o fundo musical de A Grande Arte.

Uma lembrança puxa outra e podemos parar nos anos 50, nos estúdios da Vera Cruz, quando souberam dar um certo relevo à música erudita brasileira. Caso raro, contrataram nosso magnífico Camargo Guarnieri para fazer a música de Rebelião em Vila Rica. E também um compositor da nova geração, Cláudio Santoro, que me impressionou muito. Gostava de seu novo brasileirismo musical, sua orquestração com destaque para o oboé, lembrando um pouco Hindemith. Quando nosso Clube de Cinema trouxe a Santos O Sacy, de Rodolfo Nanni, veio junto o ator Otavio Araújo, que me deu o endereço de Santoro, autor da música do filme. Algo que iria mudar minha vida, pois Santoro me aceitou muito fraternalmente como aluno particular.

Guerra Peixe, outro importante compositor da geração do Santoro (antigos alunos do histórico professor Koellreuter, o grupo música viva), compôs a música de O Canto do Mar, que vimos também em nosso Clube de Cinema, na presença de seu diretor, o lendário Alberto Cavalcanti, que debateu o filme com a gente na maior simplicidade. Momentos muito altos, admiráveis, de nossa música erudita no cinema. O seguinte talvez seja Walter Hugo Khoury com seu cinema também urbano, como o da Lina Chamie, mas um urbano de outros tempos. Com a música do grande Rogério Duprat. Estou me lembrando especialmente de Noite Vazia, seu clima meio Antonioni, mas no fundo era tudo tão a nossa cosmopolita São Paulo! E que elenco, Odete Lara, Norma Bengel! O atonalismo da música de Rogério dava toda a estranheza e melancolia da grande cidade!

Uma alegria para nós santistas foi a música de Almeida Prado para o filme Doramundo, de outro Almeida Prado, baseado no livro de Geraldo Ferraz. O compositor era santista, e o escritor quase, pois passou os últimos anos de sua vida entre nós com sua querida, a mitológica Pagú. Podem ver, são poucas as participações realmente relevantes de nossa música erudita no cinema brasileiro. Talvez a maior tenha sido idealizada pelo grande Glauber Rocha, em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ele usou magistralmente, em momentos impressionantemente adequados, antológicos, a música de Villa-Lobos, e a de um jovem, na época, Marlos Nobre, sua obra prima Ukrimakrinkrin. Algo difícil de ser repetido porque os cineastas de hoje, em sua maioria, nem sabem que existe uma música erudita brasileira, sobretudo a de nosso tempo.

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