Clássicos da literatura russa ganham nova tradução

A tradução da peça A Gaivota (Rubens Figueiredo, Cosac & Naify, 112 págs., R$ 25), de Chekhov, lançada agora para marcar o centenário de morte do escritor, poderia ser mais uma das protocolares versões que as editoras resolvem, de vez em quando, ressuscitar do catálogo, não fosse ela assinada por um escritor premiado e publicada por uma editora reconhecida pela excelência de suas traduções de autores russos. Antes lidos em versões intermediadas pelo francês ou inglês, grandes escritores russos do século 19 - Tolstói, Dostoiévski, Turguêniev, Chekhov - chegam aos leitores brasileiros com a ajuda de veteranos da tradução direta, como Boris Schnaiderman, Tatiana Belinki, Karla Gourianova e Paulo Bezerra, e representantes da nova geração de tradutores, entre eles Rubens Figueiredo e Fátima Bianchi. As razões dessa redescoberta do mercado não estão ligadas exclusivamente ao prestígio que tais autores emprestam às editoras. Tolstói, hoje, é o carro-chefe da coleção Prosa do Mundo, da mesma Cosac & Naify, com mais de 10 mil livros vendidos, concorrendo com autores como Stendhal e Hermann Melville. A editora lançou três livros de Tolstói e parte para a quarto em 2005: o tradutor Rubens Figueiredo assumiu o desafio e está vertendo para o português a monumental obra de Tolstói, Anna Karenina. Tolstói concorre com Dostoiévski em popularidade e número de traduções. Na verdade, foi por causa do último que nasceu a Cosac & Naify. Sócio-fundador da editora, Charles Cosac morou na ex-União Soviética por algum tempo para finalizar sua tese sobre o pintor suprematista Malevitch. Apaixonado pela cultura russa, tinha por meta dar ao público brasileiro uma grande tradução de Crime e Castigo. O veterano Paulo Bezerra assinou a versão para o português, mas outra editora, a 34, acabou lançando esse e outros títulos de Dostoiévski, que vendem, em média, mais que Tolstói. Crime e Castigo vendeu 18 mil exemplares e incentivou a 34 a lançar outros seis títulos do autor, que ganha mais dois ainda este ano: Os Demônios, com tradução de Paulo Bezerra, e Um Jogador, traduzido por Boris Schnaiderman. O leitor deve ter estranhado o artigo indefinido antes do título da obra de Dostoiévski. É isso mesmo. Schnaiderman achou por bem traduzir Um Jogador no lugar de O Jogador, como era conhecido o livro por aqui. Criador do curso de língua e literatura russa da Universidade de São Paulo, esse ucraniano de 87 anos, há mais de meio século traduzindo os clássicos, explica que não se trata de uma transcriação poética, como seria de se esperar de um colaborador dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, expoentes da poesia concreta que ajudaram a divulgar os contemporâneos russos no Brasil. "Como os russos não têm essa diferença entre artigo definido e indefinido e só usam um como numeral, adotei o subtítulo do livro, Apontamentos de Um Homem Moço, por concluir que o indefinido, em português, ficaria melhor." Essa e outras sutilezas da língua russa foram simplesmente ignoradas pelos tradutores há meio século. Muitas traduções eram feitas por russos que mal falavam português, auxiliados na tarefa por brasileiros que desconheciam russo e não dominavam a língua-mãe. Os resultados costumavam ser desastrosos. Schnaiderman, que chegou ao Brasil em 1925, assinou algumas dessas traduções nos anos 40, "todas elas péssimas", segundo seu rigoroso julgamento. Engenheiro agrônomo, ele não tinha convívio com o mundo intelectual. Só começou a aprimorar seu trabalho nos anos 1950, inaugurados com uma tradução de A Dama do Cachorrinho, de Chekhov. Schnaiderman desfaz o mito que consagrou Dostoiévski como um autor de estilo apressado, quase descuidado, só porque escreveu em circunstâncias adversas, pressionado pelas dívidas. Se o leitor brasileiro topou com traduções antigas, deve, segundo ele, cotejar com as novas. "É a mesma história que tentam impor a Balzac, mas a verdade é que Dostoiévski foi um grande escritor", diz, assumindo a culpa de ter feito, logo no começo de sua carreira, traduções "solenes" e "endomingadas" de clássicos como Tolstói, um autor, segundo ele, "sempre atento ao exagero literário". A primeira grande tentativa de invasão das traduções russas começou mesmo nos anos 60. Uma editora chamada Lux, de orientação marxista, lançou alguns títulos traduzidos por nomes imemoráveis. Eram versões por vezes adaptadas dos clássicos, baseadas na leitura do original russo por um conhecedor da língua, que ia traduzindo literalmente com a ajuda de um parceiro, por sua vez alguém com precários conhecimentos de português. A veterana Tatiana Belinki, responsável pela primeira adaptação de O Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, lembra que as traduções antigas por vezes pulavam parágrafos inteiros, modificando traços estilísticos essenciais dos autores. Turguêniev, conhecido pela repetição, ou Dostoiévski, que usa de forma obsessiva a expressão "etc." para interromper cenas fundamentais de sua narrativa, são dois autores cujos estilos muitas vezes são ignorados em traduções apressadas. Tradutor da obra-prima de Turguêniev, Pais e Filhos, o escritor carioca Rubens Figueiredo, de 48 anos, chama a atenção para o estilo "requintado" do russo e sua escolha meticulosa das palavras, nem sempre entendida por seus tradutores. Segundo o autor (de Barco a Seco, prêmio Jabuti de 2002), as traduções mais antigas nem mesmo atentam para expressões idiomáticas ou costumes locais. Figueiredo cita Pais e Filhos como exemplo. Na tradução antiga da Lux, uma "estação de muda de cavalo" simplesmente virou hospedaria. Os cavaleiros, claro, não gostaram nada disso.

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