Clássicos da literatura ganham ilustrações e bordados refinados

A japonesa Yayoy Kusama ilustra Aventuras de Alice no País das Maravilhas e o estilista Ronaldo Fraga cria delicados bordados para Mary Poppins

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2014 | 03h00

Clássicos da literatura sempre fascinaram grandes artistas plásticos. São inesquecíveis, por exemplo, os desenhos feitos por Carybé para os livros de Jorge Amado. Ou mesmo o traço perfeito de Poty no bico de pena que fez para Helena, de Machado de Assis. Nesse rastro, as livrarias acabam de receber outros dois trabalhos caprichados, que trazem a visão particular de artistas sensíveis para obras conhecidas: a japonesa Yayoy Kusama ilustrou Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Globo), enquanto o estilista Ronaldo Fraga criou delicados bordados para Mary Poppins (Cosac Naify), que também vem com nova tradução.

Aos 85 anos, Yayoy Kusama vive reclusa, mas sua "obsessão infinita" - cobrir o mundo com as bolinhas, disposta a não deixar espaço sem sua marca registrada - se encaixa no mundo amalucado criado por Lewis Carroll. "Eu, Kusama, sou a Alice no país das maravilhas moderno", já declarou ela que, desde criança, sofria de alucinações que obscureciam a visão com manchas. E, por viver forçosamente em um hospital para doentes mentais na década de 1970, Kusama desenvolveu uma particular perspectiva sobre o mundo, traduzido por ela como lunático, surreal - ou seja, em perfeita consonância com a sensação provocada pelas maravilhas do fantástico mundo de Carroll.

Já a criação das ilustrações de Mary Poppins foi inspirada pelo irônico texto da inglesa P. L. Travers - Fraga disse que os constantes voos da personagem (Mary é uma babá mágica que viaja pelo ar com o guarda-chuva aberto) transformaram o vento em sua principal fonte de inspiração.

O trabalho foi peculiar: ele criou os desenhos, que foram repassados a um grupo de bordadeiras de Itabira, em Minas, com uma recomendação: os bordados não poderiam ter acabamento, ou seja, os fios deveriam ficar soltos.

O visual está no mesmo compasso que o texto, que ganhou cuidadosa tradução de Joca Reiners Terron. Na versão, ele buscou as melhores soluções para manter a ironia original. Enfrentou também curiosas dificuldades, como a de encontrar termos semelhantes para a roupagem. "Os itens do vestuário feminino da Inglaterra vitoriana deram trabalho", comentou. "Como sabe, aquele era um tempo em que as mulheres se vestiam em camadas. Nunca vi tantas palavras para roupa de baixo!"

Tradição de ilustradores remonta a Carybé e Poty

Jorge Amado costumava dizer que o baiano verdadeiro não é o que nasce, mas o que renasce na Bahia. A frase serviu para caracterizar um de seus principais parceiros artísticos: o argentino Hector Bernabó, mais conhecido pelo pseudônimo Carybé. Tão logo se mudou para Salvador (a luminosidade do céu foi um dos principais motivos a convencê-lo), o artista plástico logo se tornou ilustrador cativo das obras de Amado.

Dotados de leveza e essencialidade de traço próximas do ideograma, os desenhos de Carybé tornaram-se a melhor representação do vocabulário verbal dos enredos de Amado, tanto nos livros para adultos como em O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, destinado aos jovens. Por sua extensa obra, Carybé é conhecido como o cronista da Bahia.

Outro importante ilustrador, Poty Lazzarotto também fez desenhos para livros de Amado, além de Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Dalton Trevisan. "Meus painéis são como histórias em quadrinhos", costumava dizer.

Para Rubem Braga, o segredo da qualidade do trabalho de Poty "era que ele lia do começo ao fim os livros que ia ilustrar". De fato, ele colocava a literatura como uma das principais artes e, como leitor, embarcava de corpo inteiro nos personagens antes de lhe traduzir cara e corpo, fisionomia e caráter.

 

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