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Xiang Gao/ Unsplash
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Clássico é vida

Westerns, ou, como dizíamos por aqui, filmes de bangue-bangue, eram parte da minha infância

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2021 | 03h00

Pelo que rola nos Estados Unidos, depois do luto terão um verão interminável: vacina sobrando, gente nas ruas, retomada de atividades sociais, turistas. O recordista mundial de mortes mudou de governo na hora certa. 

O Reino Unido, apesar da variante, teve média de sete mortes diárias na semana. Em Londres, nenhuma. Em Israel, também zero. Pode ser a reedição do Verão do Amor de 1967.

Aqui, que adotou como política de Estado a imunidade de rebanho, com um projeto liberal para secar o SUS, bloquear verba da educação, pesquisa, e economizar dinheiro na compra de vacina, somado ao negacionismo presidencial, o inverno será longo e tenso. 

No futuro, a pandemia acabará. Restará uma lição: a vantagem de ficar mais tempo com os filhos e participar da educação. Vejo o meu mais velho cantando Ennio Morricone no banheiro e tenho um déjà-vu. 

Westerns, ou, como dizíamos por aqui, filmes de bangue-bangue, eram parte da minha infância, cujo boom foi nos anos 1960. Morricone era a trilha dos filmes de Sérgio Leone e de intervalos dos cinemas, do hall às salas, na fila do banheiro, na pipoca. 


Maestro Morricone estava para Leone o que Nino Rota, para Fellini. Tarantino o apresentou às novas gerações. 

Apesar de não ter colocado os pés nos Estados Unidos, Leone recriava o Velho Oeste, livrando seus personagens do maniqueísmo do passado, em que o bonzinho era limpinho e vestia roupas claras, e o malvado era sujinho e vestia tons escuros. Eram todos intempestivos. Em toda parte, ruínas, sintomas de uma civilização decadente, injusta, desigual.

O diretor romano arrebentava nas bilheterias mundiais com uma estética própria e imitada: closes, rostos com barba por fazer, suados e sujos, planos longos, muitas externas, personagens solitários e complexos, moscas, sujeira, tiros com o famoso ricocheteio, que toda criança imitava. 

Seus cavalos eram impecáveis e sempre estavam em modo galope. O cenário, seco, árido, ensolarado, com insetos, animais peçonhentos em planícies cercadas por montanhas. Os personagens não tomavam água, mas uísque sem gelo. Eram inspirados em Kurosawa, que por outro lado se inspirou em Dashiell Hammett e inspirara John Sturges (diretor do deslumbrante Sete Homens e um Destino de 1960).

A Trilogia Dólar, ou Trilogia do Homem sem Nome, era estrelada por um desconhecido, Clint Eastwood: Por um Punhado de Dólar (1964), inspirado em Yojimbo, Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966), com o lendário Klaus Kinsky. Todos filmados na Espanha, onde era mais barato (orçamento médio de US$ 200 mil).

Os três se passam logo no final da Guerra Civil americana. O país estava armado, sob um caos social. Civis tinham que sobreviver como podiam no meio do fogo cruzado.

Me parece que Leone, que não falava inglês, traduzia a infância passada numa Roma dominada por fascistas, ocupada por nazistas e atacada por americanos. Quem não tinha nada com isso, o povo, se lascando para conseguir uns trocados e o que comer. 

Clint veste o mesmo poncho puído com uma estampa indígena em todos, tem sempre uma cigarrilha no canto da boca. Ninguém tem residência fixa, família, apenas o cavalo e habilidades com um revólver Colt. Todos estão de passagem, são forasteiros e de caráter dúbio.

O diretor foi contratado pela Paramount e fez Era uma Vez no Oeste (1968), com Henry Fonda, Jason Robards, Charles Bronson e Claudia Cardinale, a protagonista, prostituta de Nova Orleans que arruma um casamento à distância, se mete no meio do nada, descobre que o marido que nem conheceu morrera, fica na sua terra, a defende da especulação, manipulando os cowboys ao redor. 

O filme de três horas e US$ 5 milhões virou cult. Foi um fracasso de bilheteria nos EUA, mas um baita sucesso na Europa. Só a bilheteria francesa rendeu três vezes o orçamento.

No filme seguinte, Quando Explode a Vingança, de 1971, ele tomou partido: cowboys participam indiretamente da Revolução Mexicana. O longa começa com uma citação de Mao Tsé-tung: “A revolução não é um jantar social, um evento literário, um desenho ou um bordado, não pode ser feita com elegância e cortesia. A revolução é um ato de violência”. Indiretamente, explica a sua estética, rechaçada pelo público americano. 

Na primeira cena, em close, cupins numa madeira podre são atingidos por um jato de mijo. Bandidos atacam e humilham líderes religiosos. Me lembrou o ditado do meu avô italiano: O se sei cattolico o comunista, e alcuni si odiano (ou se é católico ou comunista, e uns odeiam os outros).

Leone foi assistente de Vittorio de Sica no filme que revolucionou o cinema, Ladrões de Bicicleta, de 1948. Algo que chama a atenção é a sensibilidade a temas sociais, emancipação feminina, e o preconceito. Seus filmes estão no Telecine, Amazon, Netflix. 

Que bom que a pandemia me deu a chance e tempo de revê-los com meus filhos. Especialmente porque há uma interrupção nas produções, e streamings descobriram os clássicos. Uma das poucas vantagens desses tempos.


É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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