Clássico de Zurlini chega ao mercado

Um dos filmes mais emocionantes da história do cinema, Dois Destinos (Cronaca Familiare) chega às lojas em DVD pelo selo Cult Classic, após a Versátil Home Video ter lançado no mercado seis títulos fundamentais do diretor italiano Valerio Zurlini (1926-1982) - Verão Violento, A Primeira Noite de Tranquilidade, A Moça com a Valise, O Deserto dos Tártaros, Mulheres no Front e Sentado à Sua Direita. Zurlini era um jovem de 21 anos quando o romance autobiográfico do escritor Vasco Pratolini (1913-1991) foi publicado. Pratolini foi um dos principais nomes do neorrealismo italiano, tendo dedicado sua literatura à descrição da vida dos deserdados, particularmente de Florença, onde nasceu.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

Seu Cronaca Familiare não foge à regra, assim como os filmes dos quais foi roteirista (Paisà, de Rossellini, e Rocco e Seus Irmãos, de Visconti). A diferença é que Pratolini conta no livro a própria vida de jornalista pobre e ideologicamente alinhado à esquerda, obrigado a cuidar do irmão mais novo, Dante, quando este, criado por uma família rica, briga com o padrasto e se vê sem dinheiro, dependendo da bondade alheia. Pratolini escreveu o livro no quarto 304 do Hotel Savoy, em Florença, lembrando no prólogo que se trata de um colóquio com o irmão precocemente morto. Dante, que passa a ser chamado de Ferruccio (Jacques Perrin) pela rica família florentina que o criou - para não carregar o "vulgar" nome de batismo - é reencontrado 20 anos depois da separação entre ele e seu irmão Vasco (Enrico, no filme).

Quando criança, eles ainda se viram algumas vezes, levado pela avó em periódicas visitas à casa da família rica que criou Dante. Impossibilitada de sustentar os dois quando a mãe dos meninos morre, 20 dias após o nascimento do menor, cabe a ela estreitar os laços entre os irmãos um pouco antes de morrer num asilo - o encontro dos três é comovente, contribuindo para isso a sensibilidade de seus intérpretes, especialmente Mastroianni, no papel do jornalista, e Sylvie como a avó. Poucas vezes o cinema conseguiu trabalhar o silêncio e a emoção de forma tão lírica e equilibrada.

A história se passa em Florença, em 1935, exatamente o ano em que o ditador fascista Mussolini invadiu a Abissínia. O irmão mais velho fica exasperado com a alienação do mais novo, sempre vestindo o mesmo casaco bege que o identifica como um representante de uma classe social à qual já não pertence, reduzido que está à miséria. O confronto ideológico, no entanto, é apenas um prolongamento das diferenças familiares. Vasco não perdoa Dante pela morte da mãe, obcecado pela ideia de que ela morreu por culpa do bebê, quando, na verdade, a causa real foi a gripe espanhola. O irmão mais novo, frágil, arranja um emprego de faxineiro, sucumbe à doença e provoca no mais velho o remorso que o faz escrever o livro como uma espécie de consolo por sua morte, anunciada logo na sequência inicial do filme, contado em flashback. Sem dúvida, o melhor de Zurlini, entre tantas obras-primas.

DOIS DESTINOS

Itália, 1962.

DVD CultClassic, R$ 29,90

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