Clássico de Strindberg ganha versão renovada

Com direção de Walter Lima Júnior, a versão do clássico Senhorita Júlia, do dramaturgo sueco, tem alteração física e temporal

MURILO BOMFIM, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2013 | 02h13

Algo desconcentrava Alessandra Negrini nas primeiras apresentações de A Propósito de Senhorita Júlia, no Rio. Focada em cenas que julgava tensas e sérias, ela ouvia o público rir, inesperadamente. Natural para a releitura de uma peça de August Strindberg. "Ele abarca personagens e sentimentos tão reais e distintos que todo mundo se identifica de alguma maneira", afirma José Almino, responsável pela adaptação do espetáculo que estreia amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Com direção de Walter Lima Júnior, a versão do clássico Senhorita Júlia, do dramaturgo sueco, tem alteração física e temporal: sai da Suécia do fim do século 19 para o Brasil efervescente com as possibilidades de mudança de 2002, no momento da eleição de Lula. "Originalmente, a peça fala de conflito de classes", informa o diretor. "Apoiei-me em um período em que havia uma expectativa histórica entre nós para configurar essa ideia."

No enredo, Alessandra é Júlia, uma mulher de classe média alta, filha de um rico deputado. Em uma noite de festa na residência da família em Petrópolis, ela se envolve com Moacir, motorista de seu pai. "Ele é de origem pobre, sua mãe era cozinheira da casa e ele foi criado naquele contexto", conta Eucir de Souza, ator que dá vida ao personagem, citando a ganância do criado pela ascensão social. O relacionamento "proibido" é a base de conflitos que envolvem a luta pelo poder, a disputa entre os gêneros, amor e liberdade.

"Esse jogo é o que chama a atenção no texto. Tem horas que a Júlia está por baixo, tem horas que está por cima. É o tempo inteiro essa tensão do pobre e do rico, do homem e da mulher. O público vai vendo essas viradas", diz Alessandra. Entre todos os conflitos expostos, a atriz vê o impasse amoroso como o mais forte para os dias de hoje, apesar de reconhecer que a questão social ainda existe.

Dani Ornellas completa o elenco interpretando Cristiane, outra cozinheira da casa - não a mãe de Moacir, mas sua mulher. "Todos os personagens de Strindberg têm muitas camadas. Cristiane é evangélica, muito correta e séria, o que não a impede de beber e dormir com o namorado", destaca a atriz.

Para Almino, a maior dificuldade no processo de adaptação foi a escolha da linguagem. "No Brasil, existe uma distinção na maneira de falar entre as classes sociais. Também era preciso considerar que, apesar da provocação sexual, Júlia é hierarquicamente superior ao motorista. Os diálogos tinham de ser verossímeis."

No texto de Strindberg, a história chega a um fim trágico: o suicídio da protagonista. Alterar o desfecho foi outro desafio de Almino. "Não cabe terminar a história de uma jovem carioca de 30 e poucos anos com uma morte justificada por uma noite cedida a um motorista", explica. Na adaptação, o fim é sugestivo e acompanha o ritmo de dramaticidade da peça. "É um Big Brother sueco", ri Alessandra.

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