Clássico de guerra

Faz parte do anedotário de Hollywood. Em 1957, um escritor francês que não falava uma palavra em inglês - Pierre Boulle - ganhou o Oscar de roteiro por A Ponte do Rio Kwai. Todo mundo sabia que Boulle não havia escrito o filme de David Lean, mas como os dois roteiristas - Carl Foreman e Michael Wilson - estavam na lista negra do macarthismo, a solução foi dar crédito ao autor do livro. O cinismo da indústria - o prêmio de roteiro foi um dos sete que a Academia de Hollywood atribuiu a Rio Kwai. O filme é famoso por haver iniciado a fase das superproduções na carreira do inglês Lean, mas foi preciso esperar mais três anos para que o produtor Kirk Douglas jogasse a pá de cal no macarthismo, em Hollywood, ao creditar outra vítima da lista negra - Dalton Trumbo - como roteirista do épico Spartacus, realizado por Stanley Kubrick.

, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2010 | 00h00

Tendo se iniciado como montador, Lean desempenhou várias funções no cinema inglês, até começar a dirigir em parceria com Noel Coward. Seus primeiros filmes foram adaptações de obras literárias de prestígio - Charles Dickens, principalmente - e aí, de repente, sem abrir mão do intimismo, Lean aderiu às superproduções e ao épico. Aos sete Oscars de Rio Kwai, somaram-se mais sete, incluindo melhor filme e direção, por Lawrence da Arábia, em 1962. Vieram depois Doutor Jivago, A Filha de Ryan e Passagem para a Índia, que consolidaram a mestria do autor nesse registro difícil que é o épico intimista.

Cinéfilo de carteirinha viu e reviu A Ponte do Rio Kwai, mas agora o filme sai em Blu-Ray e você nunca viu aquelas imagens - nem ouviu aqueles sons - com tamanho esplendor. O filme reabriu a vertente de guerra, que outros filmes e diretores foram tratando em chave mais aventuresca - Os Canhões de Navarone, de J. Lee Thompson, também escrito por Carl Foreman; Os Vitoriosos, do próprio Foreman; Fugindo do Inferno, de John Sturges; Os Doze Condenados, de Robert Aldrich, etc. A história passa-se num campo de prisioneiros dos japoneses, durante a 2.ª Guerra, no front asiático.

Os prisioneiros ingleses são forçados a construir a ponte do título. O oficial em comando - Alec Guinness, em desempenho premiado com o Oscar - choca-se com o comandante japonês (Sessue Hayakawa). Para mostrar a superioridade britânica, ele resolve fazer a ponte para valer. Uma obra-prima de engenharia bélica - que os aliados destroem, como parte da ofensiva para conter o avanço nipônico na Ásia. Diante das bombas que explodem, Guinness exclama - "Madness!" (Loucura!). Sua relação com Hayakawa é de atração/repulsão. Lean admirava as guerras e rebeliões como momentos de desobediência civil, mas não acreditava nelas. Em seu cinema, as pessoas não escapam ao destino político ou social. Como todos os épicos da fase das superproduções do artista, Rio Kwai trata da alienação humana.

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