Clássico de Câmara Cascudo ganha reedição

O que é uma milonga? E qual a relação desta palavra com dandá, paiá, remate e bodoque? Estes são termos que têm origem na tradição de regiões distintas do Brasil e que foram registrados pelo folclorista, historiador, etnólogo, advogado e professor Luís da Câmara Cascudo no clássico Dicionário do Folclore Brasileiro. A obra, cuja primeira edição data de 1954, foi recentemente reeditada pela Editora Global, que promete relançar outros títulos do autor. Quem organizou a nova edição da obra foi a professora doutora em comunicação pela ECA, Laura Della Monica. O trabalho de atualização consistiu na busca por diversas fontes: "consultei todas as Comissões de Folclore, Academias de Letras como a Paulista e a Paraense para auxiliar no trabalho de pesquisa", conta. "Conversei também com amigos folcloristas, estudiosos e literatos", completa. Assim, a obra sofreu acréscimo de verbetes, teve toda bibliografia atualizada e ganhou novas ilustrações assinadas por Marlei Sigrist e Tom Maia. De acordo com Laura, as edições antigas eram pouco ilustradas. A contribuição da estudiosa paulista nas pesquisas de Câmara Cascudo vai além da nona edição de Dicionário do Folclore Brasileiro. Laura foi colaboradora e amiga de Câmara Cascudo desde 1951 - quando se conheceram no Primeiro Congresso Nacional de Folclore. A partir de então, os dois passaram a trabalhar juntos em pesquisa. Desta forma, ela teve a oportunidade de enriquecer os estudos do amigo pernambucano informando-o a respeito do folclore paulista. Ela conta que sua ligação com o folclore brasileiro nasceu durante os dois anos em que foi aluna de Mario de Andrade, na Faculdade de Música, onde obteve sua primeira formação universitária.Primeira edição - A idéia de um Dicionário do Folclore Brasileiro nasceu pouco mais de uma década antes de se tornar concreta. Em 1939, Câmara Cascudo começou a pôr em ordem um temário do folclore brasileiro para simplificar consultas pessoais. Em 1941, a idéia tornou-se uma meta. Após uma longa pesquisa, foi publicada a primeira edição do Dicionário, em 1954. Câmara Cascudo acompanhou suas reedições até 1983, quando anunciou, em nota da quinta edição, que não teria mais condições de saúde para acompanhar o trabalho. Após seu falecimento, em 1987, outras edições de bolso foram lançadas. Relançamentos - Sob a supervisão de Laura, todas as obras de Câmara Cascudo de caráter folclórico serão reeditadas pela Editora Global. Algumas já chegaram às lojas: Made in Africa, Superstições no Brasil e Mouros Franceses e Judeus e Contos Tradicionais do Brasil, que teve seu relançamento em dezembro de 2000.Conheça alguns termos do dicionário:Milonga Termo originário da língua bundo-congolense, plural de mulonga(palavra) usada só entre os negros, significando palavrada, palavras tolas ou insolentes, segundo Macedo Soares. Também Atrapalhada, enredo, embrulho palavrório, rodeio. "Deixem-se de milongas e embrulhadas." "Ah! Se um deles soubesse o que está para acontecer, punha-se fora dessa milonga". "Não posso compreender que diabo de milonga é esta". Barbosa Rodrigues, porém, encontrou o vocabulário no Amazonas com as acepções de remédio, feitiço, talismã, e assim o registra na sua Poranduba Amazonense. Valendo por remédio, o mesmo que feitiço, é corrente na África como milongo. Equivalia, nesse sentido, ao tupi puçanga.Paiá - Pequena correia com guisos pendurados, usada abaixo dos joelhos ou acima dos tornozelos durante a apresentação do folguedo Moçambique, especialmente no Vale do Paraíba, São Paulo. Não dispondo dos quisos, os paiás são improvisados com latinhas de conservas contendo pedrinhas presas com barbante ou arame.Dandá - É a raiz de uma gramínea que, introduzida na boca, abrandava o mau humor da pessoa com quem se tratava negócio. (Manuel Querino, Costumes Africanos no Brasil, Rio de Janeiro, 1938.) É uma ciperácea, Cypetrus esculentus, L; a Ndanda, de Angola, Cyperus rotundus.Bodoque - É feito com um pequeno galho de árvore, geralmente de goiabeira, no formato da letra Y, no qual se prendem duas tiras de borracha de câmara de ar de automóvel, brinquedo muito usado pelos meninos, principalmente no interior (Jan Souto Maior, Um Menino Chamado Mário Souto Maior, Recife, 2000, Fundação Gilberto Freyre, BCP.) Dicionário do Folclore Brasileiro - Luís da Câmara Cascudo. Editora Global. 798 páginas. R$ 70,00.

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