Heino Kalis/Reuters
Heino Kalis/Reuters

Clarinetista Paquito D'Rivera toca em São Paulo

Músico fala da apresentação na Sala São Paulo e das recentes parcerias com artistas brasileiros

ROBERTO NASCIMENTO - O Estado de S.Paulo,

23 de maio de 2012 | 03h10

Há tempos que Paquito D'Rivera vive um affair com a música brasileira. Só na última década, o clarinetista, saxofonista e compositor cubano já participou do disco Obrigado Brasil, de Yo Yo Ma, e gravou outro, com foco no cancioneiro bossa nova, em parceria com o grupo vocal New York Voices. Falou maravilhas de Villa-Lobos quando esteve por aqui, em 2003, para tocar a Fantasia para Saxofone e Orquestra, do compositor brasileiro. Tem feito turnês com os irmãos Assad, em que tocam Ernesto Nazareth, Canhoto, João Pernambuco, Radamés e Garoto, entre outros. E tocado choro com o Brazilian Guitar Duo.

Longe de ser um amor de praia, o caso tem ficado cada vez mais sério. Recentemente, Paquito descobriu o trabalho de Rodrigo Pederneiras, do Grupo Corpo, com quem colaborou em um balé comissionado pela José Limón Dance Company, de Nova York. "Trata-se do meu primeiro balé. Estou muito empolgado", conta Paquito, de sua casa em New Jersey, às margens do Hudson, próxima e distante, ao mesmo tempo, do caos nova-iorquino. "Chama-se Lady in White. É um dueto que o Rodrigo havia coreografado, e me pediram para musicar. São quatro movimentos tocados com um grupo de câmara. Dez músicos. Nossa colaboração fluiu muito bem. Ele pediu apenas para que eu trocasse a ordem dos movimentos. Nada mais", explica.

Paquito sobe hoje ao palco da Sala São Paulo para mais um encontro com sua musa tupiniquim, em evento beneficente da ONG Tucca, em prol de crianças com câncer.

O músico toca com o New York Voices, acompanhado pelo excelente grupo de samba e jazz, Trio Corrente. "O Trio 'Corriente' é um vulcão", diz, em seu vertiginoso sotaque anglo-cubano "Tenho tocado com eles nos últimos anos e nos entendemos perfeitamente bem", completa. Como os conheceu? "Meu pianista tinha ouvido falar. Pedi uma referência em jazz brasileiro, e ele me indicou o Corrente. Faremos algumas do Pixinguinha, provavelmente Um a Zero", adianta.

Na set list, Corcovado, Manhã de Carnaval, Retrato em Branco e Preto, A Rã - canções de seu álbum Brazilian Dreams, de 2002, gravado em parceria com o próprio New York Voices e o trompetista brasileiro Claudio Roditi. Mas quem conhece o Corrente sabe que bastam alguns minutos da afinadíssima conversa entre o baixo de Paulo Paulelli, o piano de Fábio Torres e a suingadíssima bateria de Edu Ribeiro, para este repertório conservador ganhar uma dinâmica sambística turbinada, digna herdeira daquelas que se ouve nos primeiros discos de Elis com Cesar Camargo Mariano, Luizão e Paulinho Braga, ou qualquer disco em que tocavam Edison Machado, Pascoal Meireles, ou Milton Banana.

Mas não só de Brasil vive Paquito D'Rivera, que está próximo de completar 64 anos. Suas viagens latinas também o levaram a gravar obras do paraguaio Augustin Barrios, recentemente, em parceria com a violonista Berta Rojas. E, há cerca de três anos, montou pela primeira vez desde que viajou de Cuba para Nova York, em 1981, apadrinhado por Dizzy Gillespie, um grupo somente de músicos cubanos. Mesmo assim, Paquito não se aguenta. Joga sempre um Pixinguinha aqui, um Jobim ali.

De onde vem tanto amor? "Há algo na sua música que a torna especial. A harmonia, as melodias, as letras, tudo aparece muito bem combinado, com alma, sentimento, de modo arrojado, o que é muito atraente", disse, ao Estado, em 2003.

O renomado virtuosismo, a complexidade rítmica de seus arranjos e o profundo conhecimento do repertório cubano - de rumbas, boleros, contradanzas a son - indicam que a outra metade de seu coração ainda está no Caribe. Mesmo assim, ainda agradece a Dizzy por tê-lo tirado de lá.

"Lembro que o Arturo Sandoval pegou o Dizzy no píer. Disse 'sou trompetista, vou levar você para dar uma volta'", lembra Paquito. "Eles vieram até a minha casa, mas eu não estava. Aí o Dizzy deixou uma mensagem em inglês e espanhol. Eu achei que era um trote. Mas depois encontrei aquele cara vestido de Sherlock Holmes e não acreditei. Foi o início de uma longa amizade."

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