Clarice sou eu

Presa em sua casa, como a maioria dos cariocas na manhã de terça-feira, em meio ao caos provocado pela chuva intensa da véspera, Beth Goulart tinha, ainda assim, motivo para celebrar. Na noite anterior, ela ganhara o Prêmio Shell 2009 de melhor atriz por seu solo Simplesmente Eu, Clarice Lispector, no qual ela é intérprete e ainda assina o texto e a direção. "Numa arte tão efêmera como o teatro, todo reconhecimento é sempre importante, alegra a gente", diz. Contraditoriamente, a apresentação daquela noite fora cancelada, afinal, a recomendação das autoridades era para que as pessoas não saíssem de casa.

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2010 | 00h00

Mas seria apenas um dia de pausa na trajetória do espetáculo que estreou em julho na cidade de Brasília e desde agosto está em cartaz no Rio, com temporadas sucessivamente prorrogadas. "Clarice Lispector consegue criar uma relação estreita e silenciosa com seus leitores e, felizmente, acho que o espetáculo conseguiu a mesma correspondência com o espectador", diz Beth. Por conta da empatia alcançada, a atriz vai se desdobrar, a partir de amanhã, entre duas cidades. Clarice vai continuar em cartaz no Rio, com apresentações às terças e quartas, e inicia temporada na Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, sextas, sábados e domingos.

A conversa começa pela obra da escritora que "capturou" a atriz muito cedo. "Eu fui aquele tipo de adolescente que ficava presa no quarto escrevendo e lendo. Tinha uma vida interna mais intensa que a externa. Perto do Coração Selvagem foi o primeiro livro da Clarice a me cair nas mãos e eu me identifiquei plenamente com a Joana adolescente, com aquela ebulição de quem olha o mundo e tenta descobrir sua identidade", diz ela. Não por acaso Joana tem lugar de destaque, única personagem da escritora a ganhar "vida cênica" em dois momentos do solo.

Beth conta que ao decidir pela criação desse trabalho, releu toda a obra de Clarice Lispector. A partir daí, escreveu o texto por meio do qual traz à cena a escritora, falando sobre si própria e sua obra, e mais quatro personagens, todas saídas das páginas escritas por Clarice. Qual o critério? "Segui minha intuição, como ela fazia. Ao fim, há quase uma divisão por temas", explica. Entre os claramente traçados estão o amor ? próprio, por filhos ou marido, pelo ser humano ou pela natureza ?, inquietações existenciais, processo criativo e desejo de transcendência.

"Eu deixo a Clarice se contar", diz Beth. "Eu sou ela falando sobre si mesma e, aos poucos, faço transições para as personagens. Como Clarice, mantive o tom realista, mas a linguagem muda quando assumo a ficção. Puxo para o expressionismo ao viver a mulher (do conto "Perdoando Deus") que caminha pelas ruas de Copacabana e interpreto Lóri ("Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres") com um tango." Há ainda movimentos em câmara lenta, projeções, luz e sombras. Maneco Quinderé foi indicado para o Shell pela iluminação.

De quebra, Beth ainda ficou muito parecida com Clarice Lispector. "Valorizei maçãs do rosto saltadas, olhos puxados. Mas não busquei semelhança absoluta, porque dificultaria a passagem para as personagens.

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