Arquivo/Agência O Globo
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Clarice Lispector é homenageada com lançamento de livro de citações

Escritora, que faria 93 anos, ganha ainda ciclo de debates

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2013 | 19h30

A escrita de Clarice Lispector é viral: suas palavras ardentes, enigmáticas sempre foram responsáveis por um movimento ficcional absolutamente novo que desperta paixões. Mas, como sempre acontece na internet, muitos textos atribuídos a Clarice são falsos. Para sanar o problema, a Rocco lança nesta semana As Palavras, uma criteriosa seleção de frases pinçadas pelo pesquisador Roberto Corrêa dos Santos nas principais obras da escritora, cujo aniversário de nascimento é lembrado nesta terça: ela faria 93 anos, mas morreu com 57, em 1977.

Santos é um dos convidados do evento Hora de Clarice, que anualmente celebra uma das autoras mais amadas do Brasil. Sobre as citações, ele respondeu, por e-mail, às seguintes perguntas.

Houve alguma obra de Clarice em que a colheita de citações foi mais farta?

Sim, houve duas: Um Sopro de Vida e A Descoberta do Mundo; esse – o tanto de enunciados de beleza única – um dos motivadores (o menor deles) pelos quais escolhi, para abertura, Um Sopro, e, para fechamento, A Descoberta. Um Sopro de Vida constitui-se em livro de frases e frases soltíssimas, livres de qualquer suporte narrativo diretamente encontrável; publicou-se após a morte de Clarice, tendo sido organizado não por ela, Clarice, e sim por sua amiga Olga Borelli; estava eu diante de arcabouços de livro, de livro-a-fazer-se, bem diante, portanto, da matéria bruta e iluminada do material (sentenças e sentenças) ainda a formar-se obra: a riqueza verbal de Um Sopro surpreendeu-me, pois, em leituras anteriores, lastimava que aquele sutil rigor compositivo de Clarice não tivesse tido tempo de ali se realizar. Já a finalização com A Descoberta do Mundo se deveu ao fato de que, desde sempre, soube de sua magnitude de ideias, pensamentos, sensações, e tudo plantado no terreno das ardentes frases enviadas ao leitor de jornal todo sábado: trata-se de livro de “crônicas”, escolhidas por seu filho, Paulo Gurgel Valente. Em verdade, um livro de sabedorias curatoriais bem próximas ao trabalho que desenvolvo e que nomeio de Clínica de Artista. Completo sua pergunta, dizendo-lhe que, tendo a abertura e o fecho decididos, cuidei de montar, como se em um livro-exposição (livro como espaço artístico expositivo), uma “ordem” em que as vibrações e os acordes de pensamento/sensação pudessem mais bem mostrar as potentes alternâncias da vida do pensar e do sentir (e, logo, sempre sob o calor de sua escrita poética e pós-filosófica) na arte de Clarice.

Na escrita, Clarice comprova não estar presa a modelos. Ela está permanentemente a experimentar, mas não se trata de um experimentalismo artificioso. Ela olhou de frente o escuro, como poucos fizeram. Concorda?

Sim, concordo; “gênero não me pega” é uma de suas frases a indicarem seu não aprisionamento, seja aos chamados gêneros literários, seja aos chamados gêneros (o classificar e o fixar os “sexos”) a dividirem e tantas vezes afastarem os homens e mulheres; o experimento em Clarice diz respeito à capacidade do entregar-se, do ir-indo; do contar inclusive com o medo para dele extrair as substâncias saudáveis para audácias múltiplas; o experimento impõe ser o outro do outro; olhar-se no outro, e, se preciso, desfazer-se de algum outro que em nós se implanta como um juiz vingador e punitivo; Clarice considerava crime o experimento movido pelo impulso da novidade; nem sequer consideraria tal ato um trabalho de experimento; experimentar impõe contar com o grande trunfo do desconhecer, do não saber, do ampliar-se acatando a validade existencial dos riscos. E o escuro (a cegueira iluminante) norteia as linhas entrelaçadas que formam suas páginas. Mais do que olhar de frente: ir para o dentro-fora do que, reduzida a luz, mais permite abocanhar o que ela nomeia de neutro, de plasma, de coisa. Comer o escuro da coisa, o escuro que se instala na coisa é o que faz sua obra.

Há alguma citação de Clarice que o senhor considera sua preferida? Por quê?

Não, não tenho uma citação preferida; todas nos atacam e nos abraçam por todos os lados, segundo momentos distintos; no entanto, escolho duas, por sua radical clareza política desde sempre em Clarice; digamos que, por tal motivo, sejam estas minhas preferidas hoje: 1. “Não há direito de punir. Há apenas o poder de punir”. 2. “Punir é, no caso, apenas um resquício do passado, quando a vingança era o objetivo da sentença. E a permanência desse termo no vocabulário jurídico é um ligeiro indício de que a pena hoje ministrada ainda não é uma pena científica, impessoal, mas que nela entra muito dos sentimentos individuais dos aplicadores do direito (como sejam sadismo e ideia de força que confere o poder de punir."

A PROGRAMAÇÃO

São Paulo

“A Literatura e a Pintura de Clarice Lispector”, com Ricardo Iannace. Livraria Cultura Conjunto Nacional (mezanino da loja de Artes) – Av. Paulista, 2.073, 18 h

Rio de Janeiro

“Além do Vento, há uma outra coisa que sopra”: leitura de frases selecionadas por Roberto Corrêa dos Santos, com a atriz Malu Mader. Instituto Moreira Salles (Rua Marquês de São Vicente, 476), 19 h

“Correio feminino: As crônicas femininas de Clarice Lispector”, com Maria Camargo, Thanara Schonardie e Luciana Buarque. Mediação de Teresa Montero. Livraria da Travessa Shopping Leblon (R. Afrânio de Melo Franco, 290), 19 h

“Páginas femininas de Clarice Lispector: À procura de um rosto de mulher”, com Aparecida Nunes. Participação de Nilton Bonder e Alessandra Maestrini. Mediação Joice Niskier. Midrash Centro Cultural (R. Gal. Venâncio Flores, 182, Leblon), 20 h 

Belo Horizonte

“Clarice Lispector: ficção e biografia”, com a biógrafa e pesquisadora Nadia Gotlieb. Livraria Mineiriana (R. Paraíba, 1419 - Savassi), 19 h 

 

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