Clarice e suas cobaias

Se iluminarmos quem pergunta, a reunião das entrevistas concedidas a Clarice Lispector por notáveis figuras da cultura brasileira apresentam um traço pessoal e instigante da personalidade da romancista. Clarice quer saber dos artistas populares quais são as benesses e as sequelas causadas pela "fama". Ao ler os diálogos travados, descobre-se que o traço vira hipótese de trabalho, que ela testa em cobaias humanas, no laboratório da Vida.

Silviano Santiago,

02 de março de 2013 | 02h00

Para escrever o novo romance, Jorge Amado deixa Salvador e se refugia no sítio do tapeceiro Genaro de Carvalho. A chácara alheia fica entre a vida social intensa na capital, motivada pela popularidade, e o esconderijo propício à escrita artística. Diz ele a Clarice: "Vem muita gente à minha casa, o que é, ao mesmo tempo, simpático e maçante às vezes. Em certas ocasiões, é demais". A solidão do casal se faz indispensável à criação literária. Não se publica qualquer coisa em livro. Em seguida, o escritor político explicita a razão para a popularidade: seus livros "estão ao lado do povo e transmitem esperança e não desesperança".

Já Clarice, solitária, vive no clima ideal para a escrita literária que traz louvores. Deduz-se: sorte (ou mágoa) de Clarice que (ainda) não tem a fama de Amado.

Erico Verissimo é outro acalentado pelo sucesso em literatura escrita por funcionários públicos, para lembrar crônica de Carlos Drummond. À semelhança do baiano, o gaúcho vive da vendagem dos livros. Já na primeira pergunta Clarice explicita o que camuflou ao conversar com Amado. Autorretrata-se e testa a hipótese: "Sua fama é enorme, Erico. Se eu fosse famosa assim, teria minha vida particular invadida, e não poderia mais escrever. Como é que você se dá com a fama?".

Erico assinala primeiro o lado positivo do sucesso: "A gente se comunica com os outros, passa a existir para milhares de leitores". Esclarece: "Não decepciono os que me querem conhecer em carne e osso. Minha casa vive de portas abertas. Há noites em que temos de 10 a 20 visitantes inesperados". Não só cultiva os estranhos como também - acrescenta - a virtude da paciência. À diferença do baiano, o gaúcho não precisa de sítio alheio para ter a solidão indispensável à qualidade da criação.

Por outro lado, Erico sabe que o sucesso de venda não é bem recebido pelos críticos, e se autoprotege. Confessa a Clarice: sou um "contador de histórias". Explica-se: "Não me considero um escritor importante. Não sou um inovador. Nem mesmo um homem inteligente". Além do mais, ele mastiga o osso duro de roer da vida literária, povoada por grupos que se afirmam pela intolerância ideológica. Erico é um outsider. E, pelo que reproduzo adiante, corajoso.

Faço a glosa. Diz a Clarice que os esquerdistas o acham "acomodado". Os direitistas, "comunista". Os moralistas e reacionários o acusam de "imoral e subversivo". Há ainda a "história cretina de norte contra sul". Pede a Clarice que some os fatores que alteram a fama e acrescente ao produto a "natural má vontade que cerca todo o escritor que vende livro, a ideia de que best-seller tem de ser necessariamente um livro inferior". Indireta para Clarice?

Vinicius de Moraes é figura de transição entre a velha e a nova geração. Traz a MPB e a televisão para a vida literária. Hoje centenário, o poetinha não recebe os leitores em casa. Visita-os. Invade a casa alheia. Vaidoso, repete para Clarice as palavras da moça que é sua fã: "Você, Vinicius, vive nas estantes de nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa". Clarice não perde a deixa. Faz pergunta desconcertante ao que se diz amado: "Será que agora que apareceu o Chico (Buarque), as mocinhas trocaram de ídolo?". Os acontecimentos de maio de 1968 e a passeata dos cem mil contra a ditadura levam o poeta afetuoso a enfiar a carapuça: "Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e tem uma experiência a transmitir. Chico, não, é ídolo mesmo...".

"Aniquilado pela fama", segundo Clarice, Chico Buarque traz às entrevistas paradigma diferente ao do sítio de Genaro: o bom convívio com o barulho. Retomo o título de belo e recente filme pernambucano e refaço a pergunta de Clarice: Como criar com "o som ao redor"? Chico se lembra de conversa de Tom Jobim com Villa-Lobos em dia de grande balbúrdia em casa. Chico narra: "Tom perguntou: como é, maestro, o barulho não atrapalha? Villa respondeu: o ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro". A atitude de mestre Villa é modelo para o jovem Chico. Não se resguarda ao sair à rua: ao caminhar, se deixa cercar para os autógrafos.

Clarice não se faz de rogada. Vira entrevistada: "Eu não tenho, Chico, nem de longe, o sucesso que você tem, mas mesmo o pequeno que tenho às vezes me perturba o ouvido interno".

O paradigma se enriquece. "É verdade, Chico, que você é crédulo ou está de olhos abertos para os charlatões?" A tangente é de praxe na resposta do compositor: "Não é que eu seja crédulo, sou é muito preguiçoso". Há que entender a preguiça: "Tenho cara de bobo, porque minhas reações são muito lentas, mas sou um vivo". De maneira advertida, a preguiça é também tijolo na construção da fama na MPB. Confessa: "Tenho, por exemplo, uma pessoa que me explica o contrato e não consigo prestar atenção a certas coisas". E se justifica: "O sucesso faz parte dessas coisas exteriores que não contribuem nada para mim". Chico escapa da vaidade e da alegria pela tangente da dor: "A gente tem a vaidade da gente, a gente se alegra, mas isso não é importante. Importante é aquele sofrimento com que a gente procura buscar e achar".

O piano - face oculta de Tom Jobim - o levou, contra sua vontade, aos holofotes do Carnegie Hall. "Sempre fugi do sucesso, Clarice, como o diabo foge da cruz. Sempre quis ser aquele que não vai ao palco." Alma irmã.

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