**** Claraboia, inédito de José Saramago, escrito aos 30 anos, chega segunda às livrarias de Portugal; aqui, em novembro MATURIDADE EM PLENA JUVENTUDE ****

INÊS PEDROSA

INÊS PEDROSA É ESCRITORA, AUTORA DE OS ÍNTIMOS, FAZES-ME FALTA (ALFAGUARA), ENTRE OUTROS, DIRETORA DA CASA FERNANDO PESSOA. NESTE TEXTO, FOI MANTIDA A ORTOGRAFIA CONFORME O ORIGINAL DA RESENHISTA , O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2011 | 03h08

Um dos mitos associados a José Saramago é o da sua entrada tardia na literatura. Ideia sem dúvida consoladora para os eternos aspirantes a escritores, mas sem correspondência com a realidade. Saramago publicou o seu primeiro romance, Terra do Pecado, aos 25 anos - e só não publicou o segundo aos 30 porque o editor nem sequer se deu ao trabalho de lhe responder, ou devolver o original. Quarenta anos mais tarde essa editora contactou-o, explicando que, numa mudança de instalações, o manuscrito havia sido encontrado, e que queria publicá-lo. Saramago recusou a oferta, dizendo que já não era o momento, mas deixou escrito que os seus herdeiros poderiam fazer o que entendessem quanto a essa obra. Depois da rejeição silenciosa desse seu segundo romance, Saramago deixou de publicar ficção - só em 1977 reapareceria, com Manual de Pintura e Caligrafia, cujo editor recusaria o seu romance seguinte, Levantado do Chão (1980) - precisamente o primeiro a alcançar visibilidade. Dois anos depois, com Memorial do Convento, acedeu à glória - e a inúmeros prémios. E o resto é História.

O percurso de José Saramago é uma parábola que nos deve fazer reflectir sobre os atordoamentos e preconceitos (ideológicos, artísticos ou pura e simplesmente resultantes da ignorância e da pressa, cada vez maior, com que ela se move) que atrasam o reconhecimento e o incentivo do talento. Vejamos o que disse do livro o seu autor: "Claraboia é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser". Talvez exista alguma ingenuidade emoldurando este livro carregado de sonhos e de sonho; eu prefiro chamar-lhe luminosidade ou transparência, e agradeço-a. O dispositivo narrativo é - como sempre, em Saramago - simples, poderoso e original: dar a ver a encruzilhada de vidas e almas num prédio, isto é, pintar a pincel o microcosmo que espelha a respiração de um tempo. O processo lembrou-me o belo filme Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho. Demonstrando já o dom da arquitectura romanesca que viria a torná-lo inconfundível e único, Saramago cruza e articula, em capítulos alternados, as vidas das diferentes personagens. Que todas essas figuras tenham uma presença forte e dinâmica, é outra das qualidades fundamentais do livro - uma qualidade que impressiona particularmente no que se refere à consistência das figuras mais velhas, dado que o escritor era então muito jovem.

Em Abel, o homem de 27 anos que recusa compromissos que o tornem "casado, fútil e tributável", à maneira do Álvaro de Campos de Fernando Pessoa (o seu muso inspirador), adivinham-se as angústias e interrogações do próprio autor. "Tenho a sensação de que a vida está por detrás de uma cortina, a rir às gargalhadas do nosso esforço para conhecê-la. Eu quero conhecê-la", diz Abel. Os diálogos entre Abel e o seu senhorio, o velho e sábio sapateiro Silvestre, constituem o nó central de uma história que se detém também na opressão dos homens sobre as mulheres - um tema recorrente em Saramago - desenhando personagens femininas inesquecíveis. Entre elas, curiosamente, há uma espanhola, Carmen, que se confronta com a versão inversa do ressentido ditado português ("De Espanha, nem bom vento nem bom casamento"), dado que trocou um potencial bom casamento em Espanha por um casamento desgraçado com um português. E há ainda Lídia, a mulher ostracizada por ser a amante de um homem de negócios - mas à qual um casal respeitável não hesita em pedir que interceda junto do amante para conseguir um emprego melhor para a filha. E há uma família de mulheres sozinhas (mãe, filhas e tia) costurando estrenuamente a sua sobrevivência ao som da música clássica da telefonia.

As melhores páginas deste romance envolvente são, porém, as que descrevem guerras eróticas: o modo como o corpo de Isaura desperta através da leitura de A Religiosa de Diderot e o duelo entre a fria Justina e o seu infiel marido Camilo. O encontro sexual descrito no capítulo 29 é fulgurante - pela concisão e rigor da escrita e pela clarividência na análise psicológica das personagens. O desejo, nos os seus múltiplos rostos e assombrações, atravessa todo o livro: a reflexão sobre a mulher enquanto ser desejante surge ainda hoje como arrojada. Só isso bastaria para que a publicação deste livro fosse proibida, nesses idos de 50 do século passado. A censura portuguesa era especialmente castradora no que se referia ao sexo e à imagem da mulher.

Em Claraboia, a política aparece apenas como temperatura, uma espécie de névoa sufocante que rodeia as personagens, a contas com dificuldades económicas alienantes. As referências repetidas à "crise internacional" aproximam este romance dos nossos dias, de um modo estranhamente profético. Um romance que nos revela o Saramago inicial - já dono de uma voz e de um pensamento próprios e livres, que se exerciam à revelia das cartilhas do neorrealismo, voando no futuro.

Demonstrando já o domínio da narrativa, ele cruza, em capítulos alternados, a vida dos moradores de um prédio

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