Clara Sverner e seus dois amores, Ravel e Debussy

Pianista dedica recital a ambos e faz tributo a J.Jota de Moraes

JOÃO MARCOS COELHO, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2012 | 02h08

Em plena maturidade, a pianista Clara Sverner, nascida em São Paulo e há muitos anos radicada no Rio de Janeiro, volta-se com sua paixão característica aos amores musicais de juventude. Depois de dedicar quase a primeira década inteira deste século 21 à integral para piano de Mozart (caixa com cinco CDs, Azul Music, 2009) e em 2010 a um disco com peças variadas de Chopin, Clara revisita agora dois de seus compositores preferidos, em recital hoje no Teatro Cultura Artística Itaim, com dupla proposta.

De um lado, lança CD pela Azul Music com peças de Ravel e Debussy; de outro, faz um tributo ao crítico J. Jota de Moraes, que morreu recentemente. Ele foi um de seus grandes amigos e testemunhou de perto a gestação de momentos importantes de sua carreira - como sua gravação decisiva que em 1977 resgatou a importante obra de Glauco Velásquez, um compositor que teve vida curtíssima, só 30 anos, entre 1884 e 1914, mas foi um dos mais avançados criadores brasileiros daquele momento de transição da música, flertando até com a politonalidade e a atonalidade.

Clara tem a seu crédito outros importantes feitos, como a muito bem-sucedida aventura no movediço meio de campo indefinível entre a música popular e a erudita, com parceiros do nível de Paulo Moura e João Carlos Assis Brasil, nos anos 80/90; foi a primeira e maior divulgadora da obra pianística de Chiquinha Gonzaga. Mas jamais se esqueceu da música brasileira viva, contemporânea, tendo estreado, em duo com Paulo Moura, peças de Almeida Prado, Gilberto Mendes e Ronaldo Miranda.

O que mais impressiona nela é sua enorme sinceridade e a genuína devoção que vem exercitando em cada um de seus projetos, ao longo da carreira. O CD que será lançado hoje no Cultura Artística Itaim comprova isso. Clara constrói um itinerário que parte de Jeux d'Eau e a celebérrima Pavane pour Une Infante Défunte, de Maurice Ravel, e em seguida faz uma parada na contemplativa La Cathédrale Engloutie, do primeiro livro dos Prelúdios, de Claude Debussy.

Mas o CD dá mais peso a Ravel, com a inclusão de duas obras mais ambiciosas, como as Valses Nobles et Sentimentales e a "Sonatina", que juntas ocupam 30 minutos do CD. Um acerto, já que, apesar de 13 anos mais novo que Debussy, Ravel fez do piano um confidente ainda mais íntimo do que seu ídolo. Ele busca a interrogação apaixonada da ressonância, como escreve o pesquisador Guy Sacre. E utiliza o instrumento para revisitar a história da música - seja o classicismo reinventado da Sonatina de 1905 ou o incrível refinamento dessas valsas nobres e sentimentais de seis anos depois, tão sutis e imediatamente sedutores quanto os improvisos schubertianos.

De Debussy, Clara escolheu peças mais calmas e distendidas, como La Fille Aux Cheveux de Lin, Des Pas Sur la Neige, a valsa La Plus Que Lente, além de outra peça celebérrima, Clair de Lune, da Suíte Bergamasque. Feux d'Artifice funciona quase como extra de um CD que privilegia um pianismo tranquilo, próprio dos artistas em plena maturidade. Como Clara.

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