Carlinhos Muller/AE
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Clapton faz sua maior viagem

Eric Clapton e suas desculpas para não estar aqui. Ou por apego ou por fuga, ele é bom de correr até logo ali, em algum lugar entre 1920 e 1970, a fim de justificar sua existência e sua música. A história mostra que sempre que quis andar à frente, dançou. Behind the Sun (1985), produzido ou assassinado pelo amigo da onça Phil Collins, foi sua primeira grande tentativa de ser vanguarda, usando mais sintetizadores do que coração. O efeito foi devastador até para o guitarrista, que não suporta o álbum nem as lembranças do retorno à heroína que ele traz. Já From the Cradle (1994), quando ajoelhou em milho pela primeira vez diante de seus deuses do blues para jurar-lhes fidelidade, se tornou um dos maiores álbuns da música negra em décadas. E aí ele não parou mais de pegar o trem do qual desembarca criança em Ripley, no interior da Inglaterra, sentado diante de um rádio de válvulas.

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

E é lá que está Clapton de novo, depois de fazer a escavação mais profunda que já fizera em seu sítio arqueológico. Seu novo álbum, Clapton, é uma viagem completa e com mais cores do que seus tributos anteriores. Mostra primeiro que não foram só Robert Johnson e Muddy Waters as pessoas que habitaram seu rádio. Clapton ouviu jazz dos anos 20 e 30 aos montes e bluesmen que o tempo engoliu ou que nunca deixou existir. A viagem de Clapton é, assim, uma revelação.  

 

 

 

 

 

 

Ouça som

Trechos da música Judgement Day

 

 

 

 

 

Travelin" Alone, um blues reto e introspectivo, gravado com aquela camada de poeira das vitrolas de 1950, é de Melvin Jackson, um cara do Texas que decidiu ser bluesman após servir no exército americano na 2.ª Guerra. Rocking Chair é balada jazz do pianista, cantor e por vezes trompetista Hoagy Carmichael, o homem que só criou peças do tamanho de Heart and Soul e Georgia on My Mind. E Judgement Day, a que mais dá vontade de sair aos pulos, é um blues cheio de gaitas e pouca guitarra que Clapton pegou de um gaitista negro chamado Snooky Pryor, morto em 2006 com o mesmo índice de popularidade que tinha quando nasceu, em 1921, no interior do Mississippi. As memórias de Clapton passam ainda por Hard Times Blues, de Lane Hardin; How Deep Is The Ocean, de Irving Berlin; e por uma versão de Autumn Leaves com altas taxas de açúcar no sangue.

Clapton nunca foi tão pouco guitarrista como aqui. Suas intervenções são raras e nunca levam ao clímax. Seu caminho foi outro. Quem aparece mais é gente como o guitarrista JJ Cale (de Cocaine), o pianista Allen Toussaint; o atual baterista de Paul McCartney, Abe Laboriel Jr.; o trompetista Wynton Marsalis; e "o cara" da nova geração chamado Doyle Bramhall II. Clapton foi até ali e já volta. Ou talvez, tomara, não volte nunca mais.

BLUES

ERIC CLAPTON

Clapton. Warner

Preço médio: R$ 32

OUÇA TAMBÉM

SENT BY ANGELS Artista: Arc Angels, banda criada por Doyle Bramhall II.

Álbum: Arc Angels (1992). Preço: (fora de catálogo, mas disponível na internet).

 

 

 

 

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