Clamor do sexo, obra definitiva sobre amor teen

Grande diretor de teatro, Elia Kazan chegou a Hollywood precedido de sua reputação principalmente como diretor de atores. Depois, ao longo dos anos 1950, manteve as duas carreiras paralelas, fazendo filmes e montando peças. Por volta de 1960, ele era grande amigo de William Inge. Conheceram-se quando Kazan montou Dark at the Top of the Stairs, que Delbert Mann transpôs para o cinema (Sombra no Fim da Escada). Ambos faziam análise e conversavam muito. Foi da identificação entre o cineasta e o dramaturgo que surgiu Clamor do Sexo. Mais tarde, Kazan disse que haviam feito o filme movidos pelo desejo de falar sobre um tema - a necessidade de perdoarmos nossos pais.

, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 00h00

Clamor do Sexo é o filme definitivo sobre o amor e o desejo dos jovens. Bud e Wilma Dean, isto é, Warren Beatty e Natalie Wood, não sabem como lidar com o fogo que os consome. Ele é rico e bonitão, as garotas atiram-se sobre Bud. Ela quer manter a virgindade e os pais de ambos são contra a ligação. O de Bud espera que o filho vá para a universidade, mas, no fundo, é o que menos importa para o garoto. A mãe de Deannie acha que o romance é só fogo de palha. Bud se afasta de Deannie e passa a sair com a garota "fácil" da escola. Ela se joga sobre ele, Bud recusa. Deannie sofre um colapso nervoso.

O filme é sobre esses jovens confusos e seus pais e professores que não os ajudam. Bem mais tarde, a depressão econômica empobreceu a família de Bud. Ambos, Deannie e ele, foram adiante e, no desfecho, voltam a se encontrar. O próprio Kazan considerava a cena a mais madura que filmou. Ela virou um modelo. Muita gente já experimentou esse sentimento de se decepcionar ao reencontrar, muito depois, seu objeto de desejo e descobrir que não há mais nada. Como é (re)ver sem adoração nem desejo?

Kazan recorreu à psicanálise, em meados dos anos 1950, para tentar se entender a si próprio. Após o episódio da delação, durante o macarthismo, ele convivia mal consigo mesmo. Era visto com desconfiança e tentava entender por que o fizera. A psicanálise e o amor de sua mulher o sustentaram na crise. Tudo isso passou para o filme. Kazan é o cineasta das paixões humanas que se recusam a ser reprimidas. Em 1961, ele não apenas tinha os atores certos - Natalie e Beatty, de quem foi o descobridor -, como estava numa grande fase como diretor. O uso que faz do cenário é primoroso. Bud e Deannie passeiam abraçados pelos corredores da escola, cheio de colegas. Quando ela, solitária, caminha pelos corredores agora desertos, basta isso para expressar a dor que a consome.

Inge ganhou o Oscar de roteiro (original). Kazan e ele usam como epígrafe um verso de Woodsworth, que termina por explicar o título original (Splendor in the Grass). "Embora nada possa devolver os momentos do esplendor na relva/ de glória nas flores/ jamais sofreremos;/ ao contrário, encontremos forças no que ficou atrás." Passaram-se quase 60 anos da realização do filme. Os adolescentes de Kazan seriam hoje idosos. Além do pioneirismo de tratar do sexo sem condescendência (nem sensacionalismo), Clamor do Sexo não perdeu sua força como estudo de personagens e de época. É um grande, senão o melhor, Kazan. / L.C.M.

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