Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Ciudad Abierta faz sua travessia paulista na 30ª Bienal de Artes

Coletivo chileno celebra 60 anos com obra para Heliópolis e quer participar da vida da favela

Camila Molina - O Estado de S. Paulo,

17 Outubro 2012 | 20h08

A América é um mar interior e desconhecido entre os oceanos Pacífico e Atlântico - essa é a Amereida, território de ações poéticas, utópicas e coletivas engendradas por um pensamento nascido na década de 1950 no Instituto de Arquitetura da Universidade Católica de Valparaíso, Chile. A 30.ª Bienal de São Paulo A Iminência das Poéticas, em cartaz até 9 de dezembro no Ibirapuera, trouxe para o evento e a cidade o Ciudad Abierta, projeto cultural chileno hoje conhecido em várias partes do mundo, participando de mostras e atividades em outros países.

No pavilhão da Bienal, o coletivo tem um espaço no piso térreo onde apresenta seu conceito de liberdade, descobrimento, poesia e arquitetura, mas até o fim de novembro seus participantes vão passar por São Paulo, em oito grupos de 40 estudantes da universidade chilena, para realizar uma obra especial para Heliópolis.

"As favelas são manifestações sociais tremendamente sensíveis e com a necessidade de receber um presente", diz o professor do Instituto de Arquitetura da Universidade de Valparaíso Andrés Garcés, de 43 anos. O Ciudad Abierta é um projeto cultural muito amplo, mais conceitual e baseado na importância da experiência coletiva e íntima de relação com os locais do que de realizações materiais visíveis como a construção de edifícios. Sendo assim, desde 1984 os estudantes de Valparaíso têm como parte do currículo percorrer o continente americano. "Já fizemos mais de 200 travessias, cerca de 40 a 50 delas pelo Brasil", conta o professor de arquitetura Salvador Zahr, de 67 anos.

Os dois professores e alunos estiveram anteontem, à noite, no "ato poético" que o Ciudad Abierta realizou no teatro do Sesc Pompeia como apresentação de seu conceito. A travessia atual do coletivo por São Paulo é histórica porque faz parte das comemorações dos 60 anos do projeto, nascido em 1952, quando arquitetos e intelectuais como Alberto Cruz e Godofredo Iommi reformularam a escola de arquitetura de Valparaíso com um ensejo utópico e original. "A arquitetura é antes de tudo um modo de ver a vida dos homens, o mundo é permanente invenção", diz Zahr, que entrou na instituição em 1964. Ele afirma também que o poeta brasileiro Gerardo Mello Mourão foi ligado ao grupo.

Hoje, o Ciudad Abierta tem como base um terreno de 270 hectares na comuna de Ritoque, faz-se também na vertente acadêmica e como cooperativa, a Cooporación de Servicios Profesionales Amereida (nome do poema fundamental de Iommi, transcrito no ninho de papel do coletivo no pavilhão da Bienal). Como afirma Andrés Garcés, a corporação cultural (que recebe doações) já apresentou uma maquete para a subprefeitura do Ipiranga do projeto de criação de uma espécie de pérgola de madeira e metal, destinada a uma área de convívio da comunidade de Heliópolis. "Ela é de cerca de 60m², uma obra para sombra e acústica", conta o arquiteto.

Por enquanto, não está definido se o grupo concretizará ou não sua ideia, nada está oficialmente firmado com o governo ou com a comunidade. "A Bienal vai nos ajudar com materiais e com os contatos, mas somos bons para pedir as coisas", diz Garcés. "Nas travessias, cada pessoa aporta 600 dólares para financiar a viagem e os atos poéticos e 10% vai para a construção de uma obra", conta o arquiteto. O Ciudad Abierta quer participar da vida em Heliópolis e agora a próxima busca é por alojamento próximo ao local.

 

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