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Cisne Negro festeja 35 anos com quatro de suas maiores obras

Companhia apresentará espetáculos até domingo no Theatro Municipal de São Paulo

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2012 | 03h12

Ter conseguido resistir por 35 anos, construindo uma companhia de dança que conquistou um espaço próprio, é o maior orgulho de Hulda Bittencourt, a fundadora do Cisne Negro, que hoje divide a direção com sua filha, Danny Bittencourt. Para celebrar esse percurso de sucesso, remontaram quatro obras de seu extenso repertório e as apresentam desta quinta-feira, 5, às 21h, a domingo, às 17h, no Theatro Municipal de São Paulo: Cherché, Trouvé, Perdú (2002, música de Arvo Paart, 18'), de Patrick Delcroix; Shogun (1990, trilha musical reunindo Milton Nascimento e Fernando Brandt, Kôdo e Ondekoza from Sado Island, 6'), de Ivonice Satie; Cânticos Místicos (1989, com excertos do Messias, de Haendel, 29'43''), de Vasco Wellenkamp; e Bailantas, de Ana Mondini (1988, 21', com música ao vivo de e com Gilberto Monteiro (gaita), Eduardo Cantero (violão) e Thiago Moreira (percussão). Os ingressos custam entre R$40 e R$90.

A companhia nasceu em 1977, da reunião de alunos do curso de Educação Física da USP com estudantes do Estúdio Cisne Negro, contrariando a rarefação de elencos masculinos típica da época. Esse diferencial como que prenunciou o cuidado com a formação de bailarinos que se tornaria uma de suas mais fortes contribuições para o desenvolvimento da dança. "Me sinto muito orgulhosa do cuidado que sempre tivemos com a formação de bailarinos", diz Hulda, em entrevista por telefone ao Estado.

Muito emocionada, comenta o programa escolhido para comemorar a data: "Foi uma trabalheira remontar estas quatro criações, pois desejávamos relembrar marcas importantes na nossa trajetória. Mas nunca imaginei que existissem tantos 'órfãos' de Bailantas."

Shogun foi criado por Ivonice Satie em homenagem a seu avô, seu mestre de Iaidô/Shinto-Ryo, arte marcial que utiliza espadas. Cherché, Trouvé, Perdu, de Patrick Delcroix, surgiu com o apoio dos consulados da Holanda e da França. E Bailantas, de Ana Mondini, tem figurinos de Murilo Sola. Trata-se de um programa capaz de demonstrar o ecletismo coreográfico que tem pautado o percurso da companhia, que sempre se destacou por também incentivar coreógrafos brasileiros.

"Apareceu ontem um bailarino do primeiro elenco, o Jorge Leal, de cabelos brancos, e quase tive um infarto. Ele era o mais baixinho e Arrieta o escolheu para dançar Primeira Oração. Caí em prantos", conta ela. "A nossa situação sempre foi a de superar dificuldades. Acho que sempre fui mais louca do que imaginava. Lembro daquela fase em que o dinheiro de todos foi sequestrado, durante o governo Collor, e que, ao invés de acabar com tudo, conforme Edmundo, meu marido, aconselhava, fui ao banco escondido dele e pedi um empréstimo."

O Cisne Negro encerrou o primeiro semestre de 2012 realizando um fato inédito e conquistando um recorde: precisou dividir-se em duas companhias para atender uma agenda que transbordava e mostrou Vem Dançar e Baobá mais de 90 vezes em 20 cidades brasileiras, dentro do projeto que desenvolve para a formação de plateias.

Para o próximo semestre, a companhia prepara mais uma estreia, e vai participar da Feira Internacional do Livro de Bogotá. E, no ano que vem, retoma suas apresentações no exterior, voltando à Alemanha, onde é sempre bem recebida. "As dificuldades não foram poucas, mas tenho poucas queixas, só as normais de quem trabalha com pessoas diferentes em uma atividade tão pouco estável como a dança, na qual se enfrenta sempre um futuro incerto, sem que o que já se tenha conquistado garanta uma continuidade. Mas hoje, posso garantir que aprendi que o que nos alimenta é a certeza de que o que interessa é dançar. O que interessa é educar."

Cabe agora a Danny Bittencourt, que também coreografa para a Cisne Negro, levar adiante o legado de sua mãe.

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