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Cisne Negro e o Brasil que está nas ruas

'Sra. Margareth' abre hoje o programa da cia., que inclui ainda 'Revoada'

HELENA KATZ - ESPECIAL PARA O ESTADO,

27 de junho de 2013 | 02h20

Sra. Margareth, a nova coreografia de Barak Marshall, e Revoada, a obra com que Gigi Caciuleanu homenageou os 30 anos da companhia, em 2007, formam o novo programa que a Cisne Negro Cia. de Dança apresenta, de hoje a domingo, no Teatro Sérgio Cardoso. A companhia já mostrou sua nova aquisição na recente turnê que acaba de encerrar na Alemanha, com ótima recepção de público e crítica.

A Sra. Margareth que dá título a esta criação é a personagem que conduz Monger, produção de Barak Marshall para sua companhia de dez bailarinos, de outubro de 2008. Em Monger, ela não está em cena, e se faz presente através do soar da campainha de chamar os criados e da bailarina que fala ao microfone: "Sim, sra. Margareth, desculpe, sra. Margareth, não vai acontecer de novo".

Barak Marshall, nascido em Los Angeles, estudou filosofia e ciência social em Harvard, e imigrou para Israel em 1994. Filho de Margalit Oved, uma aclamada bailarina e coreógrafa que brilhou na Inbal Dance Theatre, foi bailarino, coreógrafo e cantor; não à toa, nas suas coreografias, às vezes, bailarinos também cantam. Com dinâmicas muito rítmicas e rápidas, que se mesclam com o teatro físico e com danças tradicionais, suas obras estão sempre ligadas à música. Algo disso vem do seu convívio com a dança para físicos fortes e ágeis da Batsheva Dance Company, criada e dirigida por Ohad Naharin, que o convidou para ser o primeiro coreógrafo residente, de 1999 a 2001. Nesse ano, quebrou a perna e ficou afastado da dança até 2008, quando um convite do Suzanne Dellal Centre o trouxe de volta. Monger nasceu assim.

Para a outra peça que compõe o espetáculo, Revoada, Gigi Caciuleanu reuniu duas obras de Stravinski que tinham o tema do fogo (Fireworks - Fogos de Artifício e Firebird - O Pássaro de Fogo). Gigi compôs mais de 250 coreografias e dirigiu o Ballet Nacional do Chile de 2001 até o ano passado. Segundo declarou na ocasião da estreia de Revoada, criou a figura de um cisne de fogo vermelho "para simbolizar a energia da transformação e continuidade da vida, para desejar ao Cisne Negro, à minha maneira, uma vida ainda mais plena de sucesso, de energia e de beleza".

Com 12 bailarinos, a Cisne Negro Cia. de Dança há 36 anos consolida um perfil próprio: investe na formação de bailarinos e constrói um repertório que coleciona obras de diferentes coreógrafos. Já se apresentou em muitas cidades brasileiras e nos seguintes países: Moçambique, África do Sul, Chile, Colômbia, Paraguai, Uruguai, Argentina, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Espanha, Alemanha e Tailândia.

Apesar da solidez da sua contribuição, a companhia continua a enfrentar as dificuldades produzidas pela falta de políticas públicas para a dança no nosso país. Danny Bittencourt, coreógrafa e ensaiadora do Cisne Negro, grupo com o qual dançou por 20 anos, conta, em entrevista ao Estado, da atual situação: "Fazemos muitos espetáculos, mas eles não cobrem nossos custos. No ano passado, chegamos a quase 100, mas quando não se conta com um financiamento, a conta não fecha. Não fosse uma verba do Itaú Cultural, não teríamos conseguido sequer começar o ano, mas este dinheiro durou somente dois meses".

A maior preocupação hoje é com a sobrevivência da cia., que tem convites para a Alemanha para os dois próximos anos, mas a insegurança com o seu futuro impede o fechamento desses importantes contratos: "Nossa existência fica ameaçada porque queremos manter o padrão de qualidade que já conquistamos. Eu mesma tenho feito a luz de alguns espetáculos para economizar nos gastos". E ela termina chamando a atenção para a obra que estreia em São Paulo: "Sra. Margareth veio na hora certa porque mostra empregados se revoltando contra o seu patrão. Tem muito a ver com o atual momento brasileiro, com o que está acontecendo agora nas nossas ruas".

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