Steve Marcus/Reuters
Steve Marcus/Reuters

Cirque du Soleil faz de Elvis um ''Rei'' cover

''É como trabalhar com o Santo Graal'', diz produtor que fez as versões de CD

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

Eric van Tourneau. Eis aqui um sujeito que demonstra mais coragem que um marine. O canadense foi o responsável por inserir "arranjos e sons mais contemporâneos" nos hits eternos de Elvis Presley, preparando sua música para o recente espetáculo Viva Elvis, do Cirque du Soleil. É mexer em vespeiro: para alguns fãs de Elvis, alterar essas canções é como grafitar o Santo Sudário para os cristãos. Tourneau levou mais de 3 mil horas ouvindo gravações, vendo filmes, shows de TV, entrevistas e fitas caseiras de Elvis, coletando 17 mil amostras musicais.

O espetáculo foi apresentado no ano passado, quando Elvis completaria 75 anos de vida. E sua versão discográfica foi agora lançada no Brasil, pela Sony Music. O CD traz 26 canções do início da carreira de Elvis nos anos 50, das trilhas sonoras dos seus filmes, de seu retorno aos palcos no 68 Special, e de suas míticas performances em Las Vegas como Burning Love, Suspicious Minds, Blue Suede Shoes e Bossa Nova Baby.

O trabalho tentou traduzir para o mundo do teatro físico do Cirque o impressionante impacto cultural da obra de Elvis Presley. Uma tarefa hercúlea porque, como disse John Lennon, "antes de Elvis não havia nada".

Ouvi que você não teve acesso a algumas masters de músicas de Elvis, como Jailhouse Rock, o que limitou o seu trabalho...

Tive acesso a tudo que precisei. O problema é que há muitos clássicos, muitas canções fantásticas. Fui contratado para trazer o repertório de Elvis para a contemporaneidade. Elvis, com sua naturalidade, e o Cirque, com sua precisão, são ambos pioneiros, os dois exploraram linguagens e forçaram as fronteiras. A diferença é que Elvis fez isso em 1965. O desafio, então, era trazer Elvis para 2010. Porque a música muda muito a cada seis meses, e Elvis se mantém inspirador para cada nova geração. Foi como trabalhar com o Santo Graal. É preciso ter coragem para encarar Elvis, e continuar de onde ele parou. Levamos três meses pesquisando.

O disco traz Elvis em ritmo de punk rock, hip-hop, música eletrônica. Qual é, em sua opinião, o interesse em promover o encontro entre Elvis e a música que surgiu após sua morte?

Houve muita música boa sendo criada após a morte de Elvis. Eu acredito que ele, que era esperto e antenado, teria incorporado muito dessa música ao seu repertório, ao seu estilo. Estava sempre um passo adiante. Elvis foi uma ponte entre a música negra e a música branca. Não foi o único, mas foi um dos quatro ou cinco originadores do rock"n"roll. Também tinha um lado fashion muito acentuado, era sedutor e vibrante. Podia vender uma música para qualquer um, ninguém se negaria a comprar uma música de Elvis. O mais importante é que ele foi um rei entre seus pares.

Entre as versões mais ousadas, você trabalhou uma coisa caribenha para King Creole.

Tentei achar o verdadeiro coração dessa canção, e busquei tingir a voz de Elvis com novas cores. É uma versão mais reggae. É importante notar que muita gente que vive em New Orleans tem raízes haitianas, ou veio do Haiti ou teve pais que vieram do Haiti para aquela região dos Estados Unidos. São negros, a tradição musical vem de outro lugar, e Elvis entendeu isso. Também transportei riffs de uma canção para outra, como em Blue Suede Shoes, que tem também gaita. Só gravei as guitarras de novo. As guitarras que possam soar como Metallica, ou coisas do tipo, foram colocadas agora, mas há muitos samples de diferentes períodos nas canções. E diálogos, como os que aparecem em Burning Love.

Em 2002, a canção A Little Less Conversation foi remixada com big beats pelo DJ holandês Junkie XL. Aquilo se tornou um estrondoso sucesso, com o vídeo que o acompanhava. Você conhece a versão? O que acha dela?

Acredito que foi mais fácil naquele caso. A música que o DJ escolheu não era um dos grandes hits de Elvis, não tinha o grande valor afetivo de seus maiores sucessos, e o que ele fez foi um remix para tocar em clubs. Não se pode comparar, foi algo completamente diferente do que fizemos. Nós tentamos isolar a voz de Elvis, não mudamos o andamento nem sua essência. Mas o trabalho que ele fez foi muito bom também, ficou muito divertido.

Qual é o grande legado de Elvis, em sua opinião?

Elvis foi um rebelde. Ele construiu a paisagem musical de sua geração.

O espetáculo do Cirque du Soleil tem mais de uma hora, mas o disco só tem meia hora.

Acho que é o timing certo para ser divertido. Mais de 11 canções seria meio exaustivo. Tentamos algo que pudesse ser uma espécie de jogo divertido para quem é muito fã, e uma revelação para quem está chegando a Elvis agora, os mais jovens.

VIVA ELVIS

Sony Music

Entertainment

PREÇO: R$ 30

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