Círculos marcam a versão de O Rei Leão

Cada ser vivo é importante na manutenção da civilização; o fim da existência de um é substituído pelo início do outro

O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2013 | 02h13

Uma das principais canções do musical O Rei Leão chama-se Ciclo da Vida e traz a essência do espetáculo: como cada ser vivo é importante na manutenção da civilização, ou seja, o fim da existência de um é substituído pelo início do outro. Pois foi a partir desse conceito de circularidade que a diretora Julie Taymor criou seu conceito para a versão no palco, transformando o musical em um grande êxito não apenas de público, mas também artístico.

É o que se pode ver no Teatro Renault, onde O Rei Leão nacional está em cartaz - como partia de um desenho que fez enorme sucesso, Julie precisava inovar e, para isso, desenvolveu interesses ideográficos, que ajudam a descobrir a essência do personagem. É o que explica o predomínio do círculo no musical: desde o enorme sol que invade o palco na primeira cena até a canção principal, Ciclo da Vida, passando pelo contorno das máscaras dos personagens. É uma excelente representação de como funcionam as gerações, desde o nascimento de novos membros até a morte dos mais velhos que, por sua vez, são novamente substituídos.

A diretora chegou ao requinte de utilizar o recurso de forma harmoniosa e criativa - basta observar a máscara que representa Scar, o leão invejoso que toma o poder à força: os traços são sinuosos e lembram uma serpente, exalando uma certa viscosidade. Não há linhas retas, o que revela seu caráter deturpado.

Por conta da grandiosidade do espetáculo, o detalhe pode passar despercebido mas revela a coerência da diretora/criadora, assim como sua fidelidade à tradição da cultura africana ao criar os acessórios utilizados pelos atores. Aliás, por conta disso, o musical abre de forma exuberante, quando um desfile de todos os animais (engenhosamente manipulados pelos atores) termina no palco, culminando com a apresentação do pequeno Simba aos súditos.

Uma das virtudes de O Rei Leão é transcender cultura e raça e, no Brasil, sua proposta encontra melhor guarida por conta da mistura étnica e da força das raízes africanas. E Julie encontrou o equilíbrio adequado ao criar um espetáculo simples em vários aspectos, mas sofisticado em termos de recursos cênicos. Se uma cena é narrada por meio de manipulação de bonecos ou teatro de sombras, a seguinte exigirá a entrada no palco de um gigantesco cenário, simbolizando a montanha de onde o rei leão observa e governa seus seguidores.

A trama é conhecida: conta a trajetória de Simba, pequeno leãozinho filho de Mufasa, que governa a floresta. O nascimento do jovem desperta a ira de Scar, irmão do rei, pois diminuem suas chances de assumir a coroa. Assim, bem ao estilo Hamlet, Scar mata Mufasa e acusa Simba de permitir a morte do pai. O rapaz é obrigado a fugir do reino e amadurece a distância, até chegar o momento de voltar e retomar o poder.

Como o espetáculo tem o propósito de não esconder o ator que manipula máscara e bonecos, a necessidade de um elenco poderoso se faz necessário. César Mello impõe respeito como Mufasa, assim como Tiago Barbosa é uma grata revelação no papel do Simba adolescente. Os garotos que interpretam o leãozinho ainda estão presos aos comandos da direção, precisando apenas de uma pitada de naturalidade. Como Scar, Osvaldo Mil só precisa conter um certo excesso de afetação para atingir o ponto certo. Finalmente, Rodrigo Candelot (Zazu), Marcelo Klabin (Pumba) e Ronaldo Reis (Timão) garantem a diversão.

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