Circo Roda Brasil no Memorial da América Latina

O colorido intenso das cadeiras enche os olhos do espectador assim que ele entra na platéia do Circo Roda Brasil. Mas o picadeiro não fica atrás, há algo de diferente nele - não há mastro para atrapalhar a visão, excelente em qualquer dos 700 lugares desse circo virgem. Nesta quarta-feira à noite, com a pré-estréia de Stapafúrdyo, o Circo Roda Brasil receberá pela primeira vez público e artistas num espetáculo.Na noite chuvosa de segunda-feira, o Estado foi conferir os últimos preparativos para a abertura desse circo único no Brasil, desde sua estrutura - com arcos de sustentação externos - até sua linguagem artística. Criado a partir de um projeto dos grupos Parlapatões e Pia Fraus, promete trazer para o picadeiro brasileiro, além de números clássicos de trapézio e equilibrismo, com rigor técnico de nível internacional, a poesia urbana que brota da agitação das metrópoles. Ensaio em andamento, fica claro que não se trata de propaganda enganosa.Divertida, bonita, tecnicamente deslumbrante é a dança de rua no palco, executada por acrobatas, com coreografia de Márcio Pial e trilha sonora de André Abujamra, especialmente composta para o Stapafúrdyo. Fascínio que se estende aos números tradicionais, como o da dupla de equilibristas Martim Alvez e Ivan Silva, que desafiam mesmo a lei da gravidade. Impressiona o contraponto entre a evidente força muscular necessária e a aparente facilidade com que sustentam um ao outro. "Eles parecem nem fazer força, chega a dar raiva", observa Hugo Possolo, diretor dos Parlapatões.Beleza em movimento poderia ser o nome do número realizado pela acrobata Dri Telg, que exibe suas formas esculturais perigosamente pendurada num arco bem lá no alto do picadeiro. Impossível não levar a mão à cabeça quando outra bonita e jovem acrobata, Jacqueline Cubana, alia técnica, talento e força, ao realizar uma parte de seu balé aéreo com apenas um pé preso ao trapézio e, num dado momento, estende o outro pé para nele pendurar-se um forte acrobata masculino. Como ela consegue?Sorte nossa que logo aparecem os palhaços para nos mostrar que pode haver imperfeição no mundo. Bons circos existem no Brasil e no mundo. Mas a linguagem que nasce do casamento artístico entre Parlapatões e Pia Fraus - surpreendente até para quem conhece o trabalho dos dois grupos - só pode ser encontrada no Circo Roda Brasil. Coisas como cortina de calotas de carro, roupas que remetem a jornais, e os bonecos infláveis da Pia Fraus, entre eles a vacagira, que surge do acidente entre dois palhaços que carregam uma vaca e um girafa. Por que a referência à imprensa nos figurinos? "Queremos tudo o que está em profusão no espaço urbano para daí virar fantasia", diz Hugo.Stapafúrdyo conta com 20 artistas selecionados em audição, entre eles a carismática Verônica Ned, filha de Nelson Ned, além dos palhaços Possolo, Raul Barretto, Claudinei Brandão e Henrique Stroeter. Conta com ainda muitos parceiros e um patrocinador diferenciado, a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR). "Foi uma comunhão de pensamento; como nós, eles querem continuidade, qualidade e preços populares", diz Possolo. "Eles queriam muito que o espetáculo fosse grátis, mas infelizmente o custo de tudo ficou muito alto. É inimaginável a trabalheira que dá montar um circo", observa Beto Andreetta, diretor da Pia Fraus. Stapafúrdyo. Memorial da América Latina - Lona (700 lug.). Rua Auro Soares de Moura Andrade, 664, portão 9, 3823-4600. 6.ª, 21h; sáb. e dom., 17 h e 20 h.R$ 20. Até 15/10. Estréia sexta.

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