Ciranda de três continentes

Naná Vasconcelos se une, em Brasília, a 120 crianças de Portugal, Angola e do Brasil no projeto Língua Mãe

Flavia Guerra, enviada especial em Brasíla, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

Naná e trupe. Raças, cores, emoções e criatividade

A ideia, de tão óbvia, tem algo de genial: unir crianças de três países e continentes, que têm como denominador comum falar português, para se apresentarem no Teatro Nacional, com a Orquestra Sinfônica do teatro, sob a regência do maestro Gil Jardim, às vésperas dos 50 anos de Brasília.

Pois foi isso o que Naná Vasconcelos e sua trupe fizeram na noite de terça. Levaram 120 crianças de 7 a 10 anos para dançar e cantar cantigas de roda para uma plateia ávida por entender o que é que africanas, portuguesas e brasileiras têm e no que dá esta mistura. "As crianças portuguesas têm mais disciplina, informação e se comportam bem. As africanas não têm tanta informação, mas obedecem quando preciso. As brasileiras... Basta pedir silêncio para que elas comecem a falar...", brincava uma das produtoras do elenco mirim, que foi escolhido por Naná em várias oficinas que ministrou desde fevereiro nas cidades do Porto, Vila Nova de Gaia (Portugal), Luanda (Angola) e Brasília.

Tanto o show quanto as oficinas fazem parte do projeto Língua Mãe, um desdobramento de outra ação que Naná já desenvolve há anos em parceria com Jardim, o ABC Musical. "Resgatar a memória das canções folclóricas de cada um dos países, é algo lindo de se fazer. As crianças portuguesas nem sabem que tantas cantigas brasileiras vieram de lá", contou Naná no ensaio geral na manhã de terça.

Língua Mãe, com direção geral de Marinho Andrade, vai virar documentário e DVD. "O documentário registra o trabalho e as oficinas em cada país. Começa com a seleção das crianças e termina quando começa o show", diz Andrade. "Já o DVD contém o show e é dirigido por Leo Falcão. Começa onde termina o documentário e segue por esta noite em que o projeto culmina no palco."

Na manhã da "noite especial", já às 9 h, as 30 crianças angolanas esperavam sua vez de entrar em cena, enquanto as 30 portuguesas e 60 brasileiras já entoavam cantigas. Mais que um espetáculo para o público, o Língua Mãe é bom mesmo para a criançada, que pode descobrir que "em português" correr atrás das crianças pode ser "correr atrás dos putos".

"Eles nascem iguaizinhos, a gente é que os cria diferente", brincou um músico da orquestra que via uma algazarra dos bastidores. Enquanto isso, Naná relembrava no palco um acontecimento: "Contaram que quando o grupo de Portugal e Angola pegou o mesmo avião para vir ao Brasil, as portuguesas cantavam uma canção do show e ouviram outro grupo, ao fundo, cantar também. E na hora disseram: "São os meninos de Angola!" É isso que o projeto busca, interação."

Na noite especial, enquanto esperavam para entrar no palco, as brasileirinhas Carol e Ingrid choravam. "Estamos tão nervosas. É muita emoção", justificaram as pequenas vestidas de azul. O mesmo azul compunha o manto que Naná usava no palco. O amarelo era das angolanas e o vermelho, das portuguesas.

Às 20h21, uma monitora corre para levar uma das "amarelinhas" ao banheiro. Enquanto isso, as "azulzinhas" fazem exercícios de respiração para aplacar a ansiedade. E as portuguesas brincam tranquilas.

Às 20h50, todas cantam juntas e descalças diante da plateia: "Eu venho de longe, sem conhecer ninguém, venho colher as rosas que na roseira tem."

Às 21h20, acaba o show e a viagem para 60 destas crianças também. Mas, para todas as 120, a sensação é de dever cumprido e saudade. Agora, muitas choram. A produtora que não gostava da indisciplina brasileira chora abraçada a uma pequena angolana de trancinhas coloridas. De olhos vermelhos, a menina dizia: "Acostumei a falar português do Brasil. E agora?"

É fato que o show poderia ter sido um tantinho mais ensaiado, é fato que o maestro Jardim teve de parar por um instante para reafinar a orquestra, que o microfone do Naná estourou um pouquinho. Mas fato mesmo é que ninguém parecia ter ido ao teatro para atentar a isso. Um espectador concluía: "É bonito ver este colorido das raças e cores, tão brasileiro e, ao mesmo tempo, estrangeiro, no palco e ouvir a voz dessas crianças. São elas que mais ganharam com o projeto. Tomaram contato com outra cultura, com a música, viajaram e aprenderam tanto. Precisa mais?" É... Não precisa.

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