Cinzas de Saramago ficam em jardim lisboeta

As cinzas do Prêmio Nobel de Literatura português, José Saramago, permanecerão em um jardim à frente da fundação que leva o nome do escritor na Casa dos Bicos, em Lisboa. O anúncio foi feito nesta sexta-feira pelo prefeito da capital portuguesa, Antonio Costa.

, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

O prefeito deu a notícia ao público no início de uma maratona de leitura do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, iniciada naquele dia na capital portuguesa. De acordo com ele, as cinzas serão enterradas no jardim ao lado de uma oliveira centenária trazida de Azinhaga, a aldeia na qual o escritor nasceu. Sobre elas, será colocada uma pedra, onde, conforme explicou o prefeito, estará gravada a frase "Mas não subiu às estrelas, se à terra pertencia", que faz parte do romance Memorial do Convento - a obra de 1982 que tornou o escritor, já veterano àquela altura, conhecido em todo o mundo. Perto da pedra, haverá um banco para que aqueles que forem homenageá-lo possam sentar e ler suas obras.

O material para a lápide será retirado da zona de Pero Pinheiro (em Sintra, a 30 quilômetros de Lisboa), a região de onde saiu a pedra com a qual foi construído o Palácio-Convento de Mafra - projeto central do reinado de d. João V e monumento colossal do barroco português setecentista ao qual se refere o romance.

Maratona. A viúva de Saramago, Pilar del Río, deu início à maratona de leitura na Casa Fernando Pessoa em frente a um público de mais de uma centena de pessoas, no dia em que se completou uma semana da morte do escritor. A escritora Inês Pedrosa, atual diretora da Casa Fernando Pessoa, afirmou que a proposta da leitura coletiva nasceu de um impulso que ela sentiu para marcar o sétimo dia da morte de Saramago.

"Em geral, o sétimo dia da morte das pessoas é celebrado com uma missa, mas, como Saramago não era religioso, imaginei que a melhor forma de homenageá-lo seria por meio dessa leitura de seu trabalho", acrescentou a autora.

A previsão, ao início da cerimônia, era a de que a leitura das 582 páginas da edição portuguesa de O Ano da Morte de Ricardo Reis continuasse até as 2 h da madrugada de sábado, no horário local (correspondente às 22 h de sexta em Brasília). Estiveram presentes à maratona várias personalidades da cultura portuguesa, além de escritores como Gonçalo M. Tavares, António Mega Ferreira e Leonor Xavier.

Repatriado. Saramago morreu na sexta-feira da semana retrasada, dia 18, na localidade de Tias, na ilha espanhola de Lanzarote, aos 87 anos. No dia seguinte, foi repatriado a Lisboa, onde recebeu a homenagem de milhares de portugueses, que desfilaram em frente da câmara ardente, instalada na Câmara Municipal da capital portuguesa.

No domingo, o escritor, o único autor de língua portuguesa a ser premiado com o Nobel de Literatura, foi cremado no cemitério de Alto de San Juan de Lisboa, depois de suas honras fúnebres terem sido acompanhadas pelas principais autoridades do governo português, pela primeira vice-presidente do governo espanhol, María Teresa Fernández de la Vega, e por vários amigos e intelectuais dos dois países.

A fundação do Prêmio Nobel em Lisboa ficará situada na histórica Casa dos Bicos - que atualmente passa por uma série de reformas. A construção data do século 16. Foi destruída por um terremoto em 1755 em Lisboa e reconstruída somente mais de 200 anos depois, em 1983. É conhecida por sua fachada original revestida de pedras em forma piramidal e com janelas no estilo manuelino. / EFE

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