Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Cinquenta anos cheios de som e fúria

Em autobiografia, Lobão revê infância, vida artística, controvérsias e questões judiciais

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2010 | 00h00

Era um daqueles sábados de azul desconcertante no Rio. A entrevista com Lobão seria numa livraria em Ipanema, bairro pelo qual ele circulou a vida toda. Mas o cantor carioca preferiu transferi-la para um hotel no Flamengo. Queria ficar mais próximo do Aeroporto Santos Dumont, de onde decolaria para a cidade onde decidiu envelhecer: São Paulo. Aos 53 anos, o momento, em que está saindo da MTV e se voltando exclusivamente à música, seu ofício primaz, é considerado pelo próprio "um rito de passagem". O marco é o lançamento da autobiografia 50 Anos a Mil, em que narra não só suas quase quatro décadas de vida profissional, iniciada aos 17 anos ao lado de Lulu Santos e Ritchie, na banda Vímana, mas também os anos que forjaram sua personalidade, quando aprendeu a rir de si mesmo.

O jornalista Claudio Tognolli coassina a capa, estampada por um Lobão mais grisalho e magro do que a imagem fixada no imaginário brasileiro. A primeira pessoa, no entanto, é do roqueiro: "Eu não tava a fim de escrever. Mas quando fiz o prólogo, não parei mais, e escrevi 900 páginas. Logo percebi que se essa história fosse contada por outra pessoa, seria trágica. Chega às raias da inverossimilhança", conta o músico, ou melhor, o multiartista - assim se reconhece -, por vezes seja tachado de "decadente" e "recalcado".

Sobrevivente. Compositor de sucessos cantados há quase 30 anos, dos hinos Me Chama e Rádio Blá às criações mais recentes, baterista desde criança, toca guitarra e violão, e bem. É um sobrevivente, e está (bem) disposto para mais 50 anos.

Menino, superou uma nefrose, doença que fez com que a mãe guardasse em casa o acanhado Joãoluizinho, o Xurupito, e fizesse dele alvo de zombaria. Mais tarde, seria diagnosticado como um "epiléptico light".

Artista de apelo jovem, cultuado talvez igualmente pelo talento e pela porra-louquice, viveu os excessos das drogas dos anos 80 (principalmente cocaína, mas também heroína), só que conseguiu colocar a cabeça para fora. Acabou padecendo da dor de se tornar órfão dos grandes amigos, que morreram em plena atividade criativa (Júlio Barroso, Cazuza).

A "vida louca, bandida" o jogou na prisão e na bancarrota, por conta dos gastos com advogados. A relação visceral com a música, a religiosidade (carola na infância, depois espírita), as brigas pela distribuição independente de seu trabalho, as desavenças no meio artístico, as vaias do Rock in Rio - tudo é contado no livro de forma quase sempre jocosa. Tire as crianças de perto e "viaje" com esse narrador-personagem, um ícone do rock nacional, que revela dramas, exageros e controvérsias com eloquência e ritmo. E sem arrependimentos.

As garras e a verve

"Herbert (Vianna) fundou tudo que a gente não queria (no rock). Ele copiava tudo e me elogiava. E eu aparecia como o maluco, o invejoso. O cara roubou minha voz. Esse fato provocou uma melhora em mim, porque ou eu morria ou me adaptava."

"O Brasil não pode prescindir de um trabalho como o meu."

"Rock in Rio? Festival, pra mim, é Glastonbury. Se tem Ivete Sangalo, não adianta ter Metallica depois."

"Esteticamente, não concordava (com o chamado BRrock). Eu não queria ser subsidiário cultural só porque estava no c... do mundo."

"Meu hobby é provocar a fúria de bunda-mole."

"Eu tenho mais de 30 hits, não sou independente, fui é ejaculado das gravadoras."

"Eu poderia ter ficado milionário, mas tinha que pagar os advogados. Não tenho apartamento nem carro."

TRECHO

"Minha mãe não estava nada bem. Aos 49 anos, herdara da mãe uma forte patologia coronariana (...) Ela me pediu que saíssemos à noite pra tomar um chopinho. (...) De repente, sinto algo se esfregando na minha perna. "Me fala se eu sou uma mulher atraente, vai?" (...)

Adentrei furibundo a sala e, transtornado, comecei a berrar com minha mãe coisa do tipo: "Escuta aqui: que merda é essa de ficar plantando bilhete debaixo da porta do meu apê? (...) Tá pensando que é mole aturar uma mãe que só fala em se matar o tempo todo? Seja uma profissional do suicídio!" (...) Fiquei preocupado que minha mãe fizesse realmente o que prometera (...) Ligo pro Brasas e sou notificado que ela está na sala de aula (...) Às 10h30 minha mãe cai fulminada em plena sala (...) Enfarte fulminante."

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