Cinexpectativas

Fui com grande expectativa ver A Rede Social, depois de ler muitos elogios ao filme, de lembrar que o diretor David Fincher é o mesmo de Seven e Benjamin Button e de ver o trailer. É um dos acontecimentos do ano e conta uma história muito interessante para os tempos atuais, mas me pareceu mais um caso de filme que é pior do que o trailer. Este, aliás, usa o mote "é impossível ter milhões de amigos sem criar alguns inimigos", ou algo parecido, como se bastasse adicionar alguém no Facebook para ter realmente um amigo. Por mais esforço que o filme faça no sentido de mostrar os defeitos de Mark Zuckerberg, o tom dominante é o que tem sido descrito pela imprensa como "a vingança dos nerds".

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

Calma lá. O próprio filme deixa bem claro que ele inventou o Facebook a partir de sites e ideias já existentes, acrescentando a eles um caráter de "clube aberto" e se valendo de sua aptidão para a programação. Mas daí a tratá-lo de "gênio" ou de "novo Bill Gates" vai um grande hiato. Bill Gates também sintetizou e avançou ferramentas disponíveis, mas foi o maior responsável pela expansão do PC, do computador acessível a qualquer tipo de usuário. Zuckerberg teve um "insight", uma sacada, ultrapassou concorrentes como o Orkut e ficou bilionário. Mas uma sacada bem-sucedida não é uma ruptura mental. É possível viver sem Facebook; é bem mais difícil sem Windows.

O filme não tem tanta história assim para contar, mas compensa com a edição ágil e as caracterizações. Jesse Eisenberg tem grande atuação no papel de Mark, um desses nerds com enormes dificuldades de relacionamento, desagradável com as mulheres, e que não pensa duas vezes antes de passar para trás as pessoas que estavam a seu lado quando tudo começou. Ao mesmo tempo, ele também se mostra um carente e se defende bem como o principal pai da sacada. Os momentos em que se entedia com a lentidão dos velhos advogados, para os quais precisa reservar apenas 10% da atenção para entender o que dizem, é significativo. Não é arrogância; é velocidade. No entanto, o filme tenta captar essa velocidade dos nerds de Harvard, mas quem não se ilude com ela vê que por baixo há baixo coeficiente de profundidade ou originalidade.

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Também fui com grande expectativa ver a cabine de Tetro, de Francis Ford Coppola, igualmente muito elogiado e com o acréscimo de ser um dos maiores cineastas de todos os tempos, autor de O Poderoso Chefão e Apocalipse Now. Não, ele não está de volta aos bons tempos, mas o filme tem muitas qualidades, algumas delas de um tipo que Fincher nem sonharia ter. Primeira, a inventividade: o filme é todo em P/B e as únicas cenas coloridas são as lembranças, uma inversão técnica muito apropriada aos objetivos da narrativa; e há passagens, que poderiam ser chamadas de teatrais ou operísticas, como os bonecos representando uma peça de Hoffmann, que ficam na memória já por seu apuro cênico. Segunda, a reflexão "existencialista" sobre amadurecimento e família, tão característica da obra de Coppola.

O começo do filme, por sinal, lembra O Selvagem da Motocicleta, seu subestimado cult, também em P/B com apenas algumas cenas em cores, no qual Matt Dillon faz o irmão que admira o mais velho, Mickey Rourke, e este se recusa a exercer esse papel de ídolo, "capaz de fazer qualquer coisa, mas sem vontade de fazer nenhuma". O Rusty James agora se chama Bennie (Alden Ehrenreich) e seu mano é Tetro, que ele antes chamava de Angie (Vincent Gallo), que está em Buenos Aires para se isolar da figura paterna, um maestro megalômano - se o leitor me perdoar a redundância - que diz que só existe lugar para um gênio na família, e para exorcizá-lo em um livro de ficção. Bennie vai atrás do irmão, cobra a atenção prometida e descobre o manuscrito, além de garotas bem mais divertidas.

Na metade, o filme se transforma e deixa a sobriedade para trás. Há lindos "takes" das geleiras da Patagônia, sugerindo um comentário sobre a importância da sombra na visão, de não se deixar ofuscar por brilhos alheios. Mas há também a sensação de que o filme descamba para um melodrama, cheio de exageros emocionais e visuais, e até um nerd é capaz de adivinhar a verdadeira natureza da relação entre Bennie e Tetro. Acidentes se sucedem, uma crítica todo-poderosa toma conta do enredo, clichês se acumulam. Mas é sempre melhor ver um filme ousado do que outro apenas "eficiente".

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Já para ver Film Socialisme, o mais recente filme de Godard, não fui com a mesma expectativa. E a pouca que levei se frustrou. Não tenho condições de analisar o filme, porque senti sono e o abandonei antes da metade. Mas até onde vi não passava de ideias triviais jogadas sem nexo, como se a fragmentação do nada pudesse esconder a habitual ambição do cineasta de discursar sobre tudo. O tema supostamente seria o fim das utopias e da Europa, como naquele Um Filme Falado de Manoel de Oliveira; e senti o mesmo tom reacionário, de que o mundo está à deriva depois da decadência do Velho Continente. Senti também saudades do jovem Godard, de Acossado, Viver Sua Vida e O Desprezo, quando as imagens e a cultura americana ainda o animavam.

Uma lágrima. Para Elza Forte Monteleone, que morreu na quarta aos 95 anos. Foi uma das primeiras mulheres jornalistas, nos anos 30, quando fazia a "página feminina" de A Gazeta, em São Paulo. Era amiga das conversas, dos vinhos, das caminhadas e dos livros; sempre se manteve ativa e opinativa. A longevidade, quando a genética não intervém, não parece ter segredo nenhum.

Rodapé. Deu no Financial Times: um dos dez melhores livros de autores estrangeiros do ano, no Reino Unido, é Órfãos do Eldorado, novela de Milton Hatoum, traduzida por John Gledson. Hatoum tem a companhia de David Grossmann, Kenzaburo Oe e Orhan Pamuk, entre outros, nenhum brasileiro. Há escritores que vendem muito em dois meses e depois somem; vendem por causa do tema ou da fama. E há escritores que o tempo se encarrega de perpetuar em novas edições.

Por que não me ufano (1). A marolinha de 2009 foi maior ainda do que sabíamos: o PIB teve recessão de 0,6% e a economia perdeu quase R$ 20 bilhões. Neste ano, até por efeito estatístico, a recuperação foi forte e o PIB pode terminar acima de 7,5%. Mesmo assim, os oito anos de governo Lula vão terminar com média de 4% de crescimento, muito abaixo dos outros emergentes, como China, Índia e Rússia, e abaixo da média de toda a América Latina. Além disso, no terceiro trimestre de 2010 o ritmo desacelerou; se não fosse pelas importações, teria recuado. A inflação deu um salto neste final de ano, aquecida por esse consumismo, e o governo se viu obrigado a mexer no crédito para conter o endividamento. Ou seja, lá vem de novo aumento de juros... E um crescimento para 2011 previsto nos velhos 4,5%, com a taxa de investimentos ainda abaixo de 20% do PIB.

Se PIB medisse mérito de presidentes, Médici seria o melhor da história brasileira. E quem acha que no governo Lula houve "inclusão social inédita", iludido com as manchetes do Ipea, simplesmente esquece o que aconteceu com Getúlio, Juscelino, o período do "milagre" e mesmo os primeiros anos depois do Plano Real. O que se passa na economia brasileira é um ganho maior com as condições externas, sobretudo a venda de commodities, mas este também é um avanço enganoso. A qualidade do crescimento piorou. Gente do governo ou pró-governo confunde "desindustrialização" com retração da indústria; trata-se da perda de sua importância no quadro geral, como se vê no ritmo menor e no uso cada vez mais intenso de máquinas e insumos importados. E na crescente concentração de muitos setores, de bancos a frigoríficos.

Tradução: o governo apoia o consumo mais que a produção. Se Dilma não mudar isso, como recomendaria Karl Marx, o preço será mais alto.

Por que não me ufano (2). Quer dizer então que o Brasil avança 4% em quatro anos no exame Pisa de educação e há quem comemore? A pontuação dos alunos brasileiros significa que a grande maioria, aos 15 anos, é incapaz de interpretar um texto que não seja uma redação "Minhas férias", não domina conceitos fundamentais da ciência e tem dificuldades com contas de multiplicação e divisão...

E não adianta botar toda a culpa na colonização portuguesa, que até 1808 impediu que o Brasil tivesse universidades, editoras e imprensa. Já houve tempo de sobra para corrigir essa defeito de formação. Nos EUA, a independência em 1776 foi equacionada com a fundação de universidades. Hoje o país tem dezenas entre as melhores do mundo. O Brasil não tem nem sequer uma entre as 200 melhores, pois a USP caiu desse ranking.

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