Cinemas fora da casca

Art Palácio deve ser reformado este ano e Cine Ipiranga está em fase avançada de desapropriação

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h17

Localizado ao lado da Galeria do Rock, cercado de tábuas de compensados, o antigo cinema Art Palácio parece aguardar que alguém o acorde de um longo sono. Projetado por Rino Levi e inaugurado em 1943 no térreo de um hotel, o Art Palácio abrigava no início da semana, em sua sala de exibição sem poltronas, um teste audiovisual de uma produtora. Um iglu virtual formava-se no centro do salão, como se fosse uma casca em mutação.

Após anos como bunker de filmes pornô, o local está pronto para o arquiteto Paulo Bruna, de 72 anos, designar o que quer que seja o seu futuro. Ex-assistente de Rino Levi, Paulo Bruna foi contratado pela Secretaria Municipal de Cultura para o restauro do local, e conta para isso com uma preciosa documentação: centenas de fotos que Levi mandou fazer, registrando minuciosamente todas as fases de construção do cinema. Está de posse também dos desenhos originais.

"Arrancaram, destruíram, mas é perfeitamente possível refazer. Eram coisas em estuque (argamassa resultante da adição de gesso, água e cal), não em gesso. Como foi uma das primeiras obras de prestígio do dr. Rino, ele documentou com grande requinte de detalhes todas as etapas", diz Paulo Bruna. Seu projeto inicial atende a uma ideia do ex-secretário Carlos Augusto Calil, que pensou em instalar ali uma espécie de Radio City Music Hall, um espaço dedicado a espetáculos musicais.

Para alcançar essa nova configuração, o projeto deverá reduzir o fundo para criar um bom palco e aumentar a curva de visibilidade. Rino Levi projetou a tela alta, para que o letreiro com a tradução ficasse visível embaixo dela. Assim, só foi necessário reduzir um pedaço do balcão. "O foyer de baixo está destruído, e o de cima é muito pequeno. Como está no mesmo nível do hotel, o edifício acima do cinema, vamos montar ali uma sala de exposições, um café, um bom bar. As pessoas em São Paulo sempre saem uma hora, duas horas antes para um espetáculo, e têm necessidade de um lugar para comer algo, descansar", diz Paulo Bruna.

O projeto ainda está em fase de levantamentos, mas o escritório de Bruna já decidiu que é necessária a desapropriação de dois pequenos estacionamentos na Rua Conselheiro Crispiniano, que vão permitir a resolução do problema de acesso ao palco. Por ali, será viabilizada a chegada de pequenos caminhões e também serão construídos camarins, salas de ensaio e a administração.

O outro cinema que também está em avançada negociação de desapropriação, faltando apenas o depósito de cerca de R$ 5 milhões, é o Cine Ipiranga, também projetado por Rino Levi e inaugurado em 1941 no térreo do antigo Hotel Excelsior - o hotel fechou suas portas em abril de 1993, quando foi decretada a falência da Rede Horsa de Hotéis, da qual fazia parte. A sala de cinema fechou em 2005 com O Grito, com Sarah Michelle Gellar e dirigido por Takashi Shimizu. Agora, a intenção é de manter a sala, sem alterar sua função original.

O Cine Ipiranga pertence à imobiliária Savoy e está fechado há quase 10 anos e uma visita às suas dependências reserva uma bela surpresa: é o que está em melhor estado de todo o conjunto por ali. "É uma obra-prima do art déco", espanta-se o arquiteto Bruna. Sua resistência ao destino comum de muitos cinemas do centro (o de virar bingo ou igreja evangélica) é admirável.

O Cine Ipiranga chegou mesmo a ser cogitado para substituir o Cultura Artística após o incêndio que o dizimou, em 2008. Era frequentado por gente como Paulo Emílio Salles Gomes, que foi três vezes ver Chaplin ali, e sua grandiosidade está na memória de muitos. "Uma vez, nos anos 50, vim de Araraquara com meu pai e fomos ao Cine Ipiranga assistir Férias de Amor (Picnic), sucesso com Kim Novak e William Holden. Não me deixaram entrar. Estava de paletó, mas sem gravata. E eram 2 da tarde", escreveu, em crônica no Estado, o autor Ignácio de Loyola Brandão.

Ao tombá-lo, em 2009, o presidente do Conpresp, o arquiteto José Eduardo de Assis Lefèvre, declarou: "É importante preservar o Cine Ipiranga porque é um projeto do Rino Levi, que representa bem a obra dele. Além disso, é um cinema bem resolvido e inovador".

Dentro da sua estratégia de desenvolver uma política de recuperação dos cinemas de rua em São Paulo, a prefeitura enfrenta seu impasse mais estridente no Cine Belas Artes. A intenção manifesta de retomar o edifício para devolver aos paulistanos um dos seus mais cultuados espaços culturais esbarra num nó: o valor da desapropriação estaria em torno de R$ 30 milhões. Ou seja: seis vezes mais caro do que custará a desapropriação do Cine Ipiranga, no qual deverá ser gasto muito pouco em recuperação.

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