Cinemas diferentes mas que enfrentam problemas parecidos

ANÁLISE: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h07

A rivalidade não se dá só no futebol. Também no cinema, Brasil e Argentina representam as duas grandes forças da América do Sul, muito à frente de seus mais diretos concorrentes, Uruguai e Chile.

Tanto Argentina como Brasil podem contar vantagem na competição cinematográfica, dependendo do ângulo pelo qual se olhe. Eles saem na frente num quesito que ainda incomoda muito a nossa problemática autoestima. Enquanto nunca ganhamos um Oscar, esse Graal das novas gerações, eles já possuem dois na prateleira, os de A História Oficial e O Segredo dos Seus Olhos.

No entanto, o Brasil tem apresentado nos últimos anos produção mais estável e com participação mais importante no mercado. Temos ocupado de 10 a 15% dos bilhetes vendidos no circuito de exibição, enquanto eles se mantêm abaixo da linha de 10%. Isso, apesar de muita gente boa no Brasil dizer que o cinema argentino é bem melhor do que o nosso.

Há controvérsias. No Brasil temos uma visão panorâmica da nossa própria produção. Do pior ao melhor, passando pelo mediano, tudo, de uma forma ou de outra, está à nossa vista, nas telas comerciais ou nos festivais de cinema. Desse modo, nosso olhar tende a ser mais rigoroso com a produção doméstica.

Da Argentina, chega apenas uma parcela de qualidade, já depurada por uma seleção prévia. No circuito de arte, estreiam filmes como os de Lucrécia Martel, Pablo Trapero ou Lisandro Alonso. Ganham distribuição mais ampla filmes de diretores de prestígio, como Juan José Campanella, ou de ator de sucesso como Ricardo Darín.

As formas de apoio e financiamento são muito diferentes nos dois países. No Brasil, faz-se uso das leis de incentivo, as do Audiovisual e Rouanet, para fomentar a produção. São leis de renúncia fiscal. Isto é, o Estado brasileiro renuncia a uma parcela de impostos caso as empresas contribuintes invistam em cinema. O formato foi adotado para substituir o modelo estatal da Embrafilme, demonizado nos anos 1980. Quando Collor desmontou o sistema (que capengava havia anos), o cinema nacional entrou em colapso. Já no governo de Itamar Franco foi preciso tomar medidas para recolocá-lo em pé, mas sem dar impressão de intervenção estatal. Usou-se então o mecanismo da renúncia fiscal. Dinheiro público, mas sem aparência de dinheiro público. Mais tarde, em 2001, criou-se a Ancine, responsável pela regulação do mercado cinematográfico do País.

Já a Argentina conta com um instituto de cinema nos moldes da antiga Embrafilme. O Incaa (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales) centraliza o fomento através de uma linha de crédito e subsídios para a realização de filmes. Determina também a cota de tela, visando à proteção do filme nacional. Mantém, em Buenos Aires, o Espacio Incaa, circuito de várias salas destinado à exibição de produções locais, com ingressos subsidiados. A inteira custa 8 pesos (menos de R$ 3).

O modelo falsamente liberal do Brasil produziu algumas distorções, entre elas uma inflação de custos, alavancada pelo dinheiro "sem dono" oriundo da renúncia fiscal. Além disso, há a intervenção excessiva dos departamentos de marketing das empresas na escolha do conteúdo dos filmes a serem financiados. A produção às vezes não tem como ser escoada.

Já na Argentina, que não padece desses males, o modelo mais centralizador também não tem sido capaz de enfrentar desafio comum ao Brasil e a praticamente todos os países do mundo: como colocar o produto nacional num sistema formatado para acolher os arrasa-quarteirões norte-americanos? Como se sabe, às vezes dois ou três blockbusters dominam a quase totalidade do circuito.

Em medida polêmica, o Incaa, em 2011, passou a taxar o produto estrangeiro de acordo com o tamanho do lançamento. Quanto maior a ocupação de salas, mais se paga, e o dinheiro vai para o financiamento da atividade cinematográfica nacional. É uma forma de tentar equilibrar o mercado, ainda com resultado incerto. Inútil dizer que medidas desse tipo nem sequer são pensadas no Brasil. Ou quando vêm à baila, levantam tamanha gritaria do chamado "livre mercado" que logo são arquivadas. Esse jogo eles estão ganhando de 1 a 0.

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