Cinema, teatro e modernidade, em nova coleção

Ismail Xavier é considerado um dos mais lúcidos e inspirados pensadores do cinema no Brasil. Autor de livros fundamentais como Sertão Mar e Trajetórias do Subdesenvolvimento, o professor da Escola de Comunicação e Artes da USP está agora encarando novo desafio profissional: foi chamado para dirigir a coleção Cinema, Teatro e Modernidade, da Editora Cosac & Naify. O primeiro livro, O Cinema e a Invenção da Vida Moderna, coletânea de textos organizada por Leon Charney e Vanessa R. Schwartz, já foi lançado. Os outros cinco virão a seguir: Teoria do Drama Moderno, de Peter Szondi, Eisenstein e o Construtivismo, de François Albera, A Tragédia Moderna, de Raymond Williams, Um Olho para Reinar, de Arthur Omar, e O Olho Interminável, de Jacques Aumont. Na entrevista concedida à Agência Estado, Ismail fala da coleção e do eixo conceitual que liga esses volumes. Eixo que procura articulações e relações múltiplas entre cinema, teatro, pintura ? artes que costumam ser consideradas em separado, para prejuízo de todas elas. Abaixo, trechos da entrevista, divididos em blocos temáticos.Cinema e Teatro - Quanto ao cinema, a idéia da coleção é incentivar uma reflexão que se apóie num conhecimento mais aprofundado das relações que ele estabeleceu, em diferentes momentos, com o movimento mais amplo da cultura e da sociedade; trazer uma visão em close-up daquilo que muitas vezes é objeto de referências vagas, lugares-comuns.Quanto ao teatro, os livros da coleção estarão focalizando as transformações aí ocorridas na modernidade, o que, em termos do último século, inclui a experiência do cinema. Haverá um eixo comum, inclusive ocasiões em que cinema e teatro serão tratados num mesmo volume, como quando forem tematizadas questões ligadas aos gêneros dramáticos, como o melodrama, por exemplo, que é um produto da modernidade e tem conexão direta com a crescente importância da experiência do olhar na sociedade industrial.A fertilidade de relacionar uma arte à outra - Dentro do espírito de que a observação das semelhanças e diferenças entre as várias artes permite uma análise mais lúcida de todas elas, o convite será sempre o de pensar cinema e teatro em contexto, ou seja, dentro da história, mesmo que a atenção se volte, de imediato, para questões bem específicas e mobilize categorias já consagradas, o que se fará justamente para mostrá-las como um problema em nossa época, como é caso do livro clássico de Peter Szondi sobre o drama moderno, e o de Raymond Williams sobre a tragédia. Szondi é autor-chave na reflexão sobre a questão dos gêneros e seu destino a partir do século 18, extraordinário analista que, dentro de uma concisão invejável, nos ilumina aspectos centrais da obra de dramaturgos como Ibsen, Chekhov, Strindberg, Pirandello, Brecht, O?Neill e Arthur Miller, entre outros.A interação entre as várias formas de representação tem sido intensa nestes últimos cem anos. Cotejar o novo com a tradição ou entender o que a emergência de um novo meio provoca no campo das artes já consolidadas não são, enfim, assuntos novos, mas precisam ser renovados. Este é um horizonte desta coleção organizada em torno do trinômio teatro-cinema-modernidade. A interação entre as artes não é, porém, a preocupação exclusiva. Como os primeiros títulos já evidenciam, tópicos de cinema e teatro estarão também focalizados em seu próprio direito, como se diz, satisfazendo aos amantes do específico, pouco afeitos a tais cotejos. De qualquer modo, no que diz respeito às articulações entre os meios, não se trata de pensar o diálogo somente a partir do fato histórico da ?passagem? do teatro ao cinema, esta mesma que nos estimula a examinar o que este incorporou daquele no início do século para se desenvolver enquanto espetáculo. Nosso objetivo é interrogar um e outro enquanto campos de experiência e de representação onde se manifestam determinados vetores da experiência moderna, tais como a hipertrofia da visualidade, o senso de teatralização do cotidiano, a onipresença das imagens, com tudo o que há aí implicado de inovação e regressão estética, incluído o reposicionamento do teatro face aos espetáculos populares. Grosso modo, a partir do fim do século 18, houve um movimento da encenação teatral em direção às formas de uma cultura burguesa, mercantil, correlato às transformações econômicas (Revolução Industrial) e políticas (notadamente a Revolução Francesa) que inauguraram uma modernidade pautada pela nova experiência da cidade e pela aceleração das trocas; é o mundo da ciência e da técnica, da fotoquímica e da eletricidade, de invenções que incidem sobre as formas do espetáculo em geral, e sobre as formas de conceber as relações entre palavra e imagem (incluída a cena teatral).A coleção trabalha, portanto, um período que vai além do marco histórico definido pelo advento do cinema, pois seu objetivo é tematizar a experiência e as formas do olhar que, na modernidade, tornaram o cinema possível e deslocaram o teatro no campo da cultura. E incidiram também sobre a dramaturgia (hoje, no centro dos debates sobre o roteiro cinematográfico). A partir de Diderot a relação entre cena e quadro (estes dois termos são muitas vezes intercambiáveis), ou entre teatro e pintura, levanta questões decisivas sobre a representação (o olhar, a moldura, o espaço, a ação, as tensões entre o instante e a progressão no tempo, ou entre o campo visível e o que está ?fora do quadro?) que a emergência do cinema veio potencializar, redefinir, cada arte procurando direções próprias que já foram motivo de muitos estudos.Teatro e cinema usam recursos diferentes para compor a interação entre um ponto de vista e uma performance, mas tal dinamismo supõe elementos comuns que intervêm quando observamos um ator (no palco ou na tela), ou quando observamos um sujeito entrevistado num documentário, ou mesmo quando enfrentamos, no dia a dia, os aparatos (não somente as câmeras) que enquadram o gesto, a postura, a interação social, a fala. Se pensar o cinema e o teatro na modernidade é lidar com os pontos de convergência, cada qual terá seu curso próprio na coleção, pois esta se propõe a tematizar a ?sociedade do espetáculo? através de uma apresentação, em paralelo, de estudos voltados para duas formas canônicas, institucionais, porém ?impuras? de representação.Sobre o primeiro livro da coleção, o cinema e a invenção da vida moderna - Este primeiro volume que traz o ponto de vista de historiadores, num leque de pesquisas notáveis sobre cada um dos aspectos do período 1870-1920 aí abordados, tendo em vista uma caracterização da nova forma do olhar presente na sociedade, já um esboço de cinema antes do cinema. Um olhar que se afirmou com nitidez nos novos gêneros do discurso jornalístico, na disposição dos cartazes nas ruas, nos transportes, nos hábitos da população urbana com sua paixão pelo ver exercida nos museus, nos shows de music-hall, nas feiras e até no necrotério. O essencial é que o percurso das pesquisas históricas, neste caso, envolve interrogações de caráter estético e é esclarecedor para a observação da estrutura do espetáculo cinematográfico, ou mesmo para a avaliação da sensibilidade da época, dada a nova relação do corpo com o espaço e o tempo, numa experiência que não foi inventada, mas apenas cristalizada e potencializada pela nova técnica da imagem em movimento. O que me atrai, neste livro em especial, é a riqueza de detalhes com que configura a nova experiência do olhar, articulando a economia e a cultura, as novas formas de espetáculo e os influxos do jornalismo e da publicidade na vida cotidiana, explicando, por outro lado, o que tudo isto tem a ver com noções que tiveram um papel-chave naquele momento na estética do cinema, como a noção de fotogenia cunhada por Epstein, ou a de atrações cunhada por Eisenstein. Depois desta coletânea, não construímos o nosso 1900 da mesma forma, nem insistimos em certas ilusões a respeito do que é novo em nossa experiência visual de todo dia, cem anos depois.Cinema e pintura - O livro de Aumont ? O Olho Interminável ? consegue um raro equilíbrio na abordagem das relações entre fotografia, cinema e pintura, apoiado na sua erudição, que conhecemos, e num trajeto que começa nos Irmãos Lumière e termina em Godard. Temos neste livro um exame mais específico (a questão do quadro, da multiplicação dos pontos de vista, da cor) da relação entre o cinema, a tradição pictórica e a arte moderna, sem a repetição das aproximações genéricas e já gastas.Arthur Omar - Sem dúvida, a presença de Arthur Omar neste elenco se deve à sua condição de cineasta, fotógrafo e criador de vídeos e instalações, mas o ponto mais decisivo é a reunião de seu percurso de reflexão sobre as relações entre palavra, imagem e música, ou sobre o processo criativo, feita a partir das questões colocadas por sua obra. Um percurso cristalizado em escritos em grande parte desconhecidos ou dispersos em publicações às vezes inacessíveis.Ele não é o único cineasta brasileiro marcado pelo trânsito nas várias mídias, mas sua posição é peculiar pela consistência do seu experimentalismo articulado a uma produção textual já numerosa que precisa ser melhor conhecida em seus diferentes momentos, inclusive nas suas formulações mais recentes. Para mim, o seu percurso e a sua contribuição mais decisiva no campo do olhar e da escuta não podem ser compreendidos sem a atenção à sua forma de lidar com a questão da máscara, ou seja, do teatro.Eisenstein e o construtivismo - Dentro desta idéia de estudos em profundidade e, ao mesmo tempo, capazes de abrir um horizonte mais amplo de relações, o livro de François Albera sobre Eisenstein ganha especial interesse porque nos traz uma rigorosa leitura de um único texto, Dramaturgia da Forma Cinematográfica, preparado pelo cineasta para uma conferência a ser ministrada num encontro de artistas plásticos e arquitetos em Stuttgart, em 1929. Albera nos conta a história desta conferência e elabora uma análise vocabular, conceitual, apoiada no cotejo de suas diferentes versões ? em alemão e em russo, escritas por Eisenstein; em inglês e francês, preparadas pelos seus primeiros tradutores, dentre eles Jay Leyda que publicou, nos Estados Unidos, as coletâneas de ensaios autorizadas pelo cineasta: Film Form e Film Sense. Enquanto enriquece a leitura do texto e mostra sua posição-chave na obra teórica do realizador russo, Albera debate toda a questão das artes visuais nos anos 20 na União Soviética, trazendo a melhor discussão até aqui feita do papel do construtivismo no percurso de Eisenstein, artista que ele insere na constelação formada por figuras-chave nas polêmicas de então, como Victor Shklovski, Maiakovski, Alexei Gan, Malevitch, Tatlin, Rodchenko, Kulechov e Vertov, entre outros.

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