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Cinema, safra de 39

São deste ano clássicos como ‘O Mágico de Oz’, ‘No Tempo das Diligências’ e ‘E o Vento Levou’

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 02h00

E não é que Cidadão Kane perdeu mais uma? 

Em 2012 perdeu o primeiro lugar na lista de “melhores filmes de todos os tempos”, decenalmente promovida pela revista Sight & Sound com críticos do mundo inteiro. Depois de meio século de intocada hegemonia, cedeu o posto a Um Corpo Que Cai (Vertigo). Agora deixou de ser o que parecia líquido e certo: o filme mais influente de todos tempos. 

Não perdeu outra vez para Hitchcock, mas para, acredite, Victor Fleming. E não foi o Fleming de E o Vento Levou.

Pesquisadores italianos da Universidade de Turim analisaram 47.000 títulos de 26 gêneros e concluíram que nenhum filme exerceu mais influência no cinema do que O Mágico de Oz. Não se guiaram pela venda de ingressos, nem pela fortuna crítica, apenas pelo número de referências, na tela, à onírica epopeia de Dorothy, ao longo de praticamente oito décadas. 

Cidadão Kane já tinha quase três décadas de liderança na lista dos “melhores filmes” de todos os tempos quando os críticos da veneranda revista britânica Films in Review inverteram os termos de tais escolhas, elegendo “o melhor ano da história do cinema”. Ou melhor, o ano da melhor safra de filmes em todos os tempos. Deu 1939 na cabeça. E ninguém apontou outra. Até hoje. 

Lançado em agosto de 1939, O Mágico de Oz faz parte dos top ten daquela privilegiada temporada. Os demais, por ordem de estreia: No Tempo das Diligências (Stagecoach), Gunga Din, Ninotchka, O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), A Mocidade de Lincoln, Mulheres (The Women), A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington), Heróis Esquecidos (The Roaring Twenties), E o Vento Levou

Em 1939, o cinema americano vivia o seu apogeu. Só naquele annus mirabilis produziu 530 filmes e vendeu, no mercado interno, 170 milhões de ingressos. A guerra, iniciada em setembro, se por um lado dificultou-lhe o acesso ao mercado internacional, por outro o beneficiou com uma imigração em massa de cineastas, atores, técnicos e escritores europeus dispersos pela ascensão nazista. 

Seis dos dez selecionados concorreram ao Oscar de melhor filme, conquistado pelo último lançamento do ano, E o Vento Levou. Fleming dominou a temporada, com dois retumbantes sucessos de público e crítica. Se houvesse um prêmio de alta produtividade, um troféu de inspiração stakanovista, nenhum outro cineasta o tomaria de John Farrow, que naquele ano dirigiu seis filmes, secundado pelo imigrado húngaro Michael Curtiz (nascido Mihaly Kertesz), que assinou quatro. 

Mas o maior destaque autoral foi mestre John Ford, com duas grandes obras: No Tempo das Diligências e A Mocidade de Lincoln. Os dois blockbusters assinados por Fleming eram, acima de tudo, criações coletivas, filmes de produção, de autoria difusa. Ford, com Stagecoach, revolucionou o western; e em Young Mr. Lincoln modernizou a forma de biografar personagens históricos, tornando ainda mais visíveis as rugas de cinebiografias convencionais como Juarez, de William Dieterle, outro lançamento de 1939.

Ford fecharia o ano com um terceiro filme, Ao Rufar dos Tambores (Drums Along the Mohaw), sua primeira experiência em cores, com a qual concluiu uma trilogia sobre o processo civilizatório da América.

Claro que falta pelo menos um filme europeu nessa lista: A Regra do Jogo, de Jean Renoir. Talvez outros, vindos de paragens diferentes como Japão (Crisântemos Tardios, de Mizoguchi) e da própria França (Trágico Amanhecer, de Marcel Carné), fossem acrescentados por alguns cinéfilos, embora a grande contribuição do cinema francês, naquela temporada, tenha sido mesmo a tragicomédia de Renoir, aguçada sátira à decadente burguesia francesa, que em breve teria de conviver com os ocupantes nazistas. 

O filme francês que então desfrutava de mais prestígio fora do país era A Mulher do Padeiro, de Marcel Pagnol, um dos filmes favoritos de Orson Welles. Virou peça de museu, ao contrário de A Regra do Jogo, explicitamente reverenciada por Bergman (Sorrisos de uma Noite de Amor), Chabrol (Os Primos), Fellini (A Doce Vida), Carlos Saura (A Caça), etc., e até hoje em forma. 

Antes de submeter-se docilmente ao jugo alemão, a burguesia francesa exigiu a mutilação e, em seguida, a proibição do filme de Renoir pelo governo colaboracionista de Vichy. Também demonizado pelos nazistas, seus negativos acabaram involuntariamente destruídos pelos aliados, durante um ataque ao estúdio onde eles haviam sido guardados. Somente na década de 1950 Renoir logrou restaurar a versão completa do filme, a partir de várias cópias espalhadas pelo mundo.

Transtornado pelo fiasco comercial de A Regra do Jogo e sua perseguição pela Censura, Renoir mandou-se para a Itália, mas a guerra interrompeu no nascedouro sua adaptação ao cinema da ópera Tosca, de Puccini. Em maio de 1940, o cineasta foi tentar carreira em Hollywood. 

Há tempos me dei à pachorra de descobrir o que futuros cineastas importantes faziam em 1939. Fritz Lang, com 48 anos, naturalizou-se cidadão americano. Bergman, 21, montava documentários na Cinemateca do MoMA, em Nova York. Buñuel, 39, idem. Chaplin, 50, preparava O Grande Ditador. Hitchcock, 40, acertava sua ida para Hollywood com Selznick. Fellini, 19, desenhava charges, traduzia e recriava histórias em quadrinhos. Huston, 33, estreava como diretor na Broadway. Minnelli, 37, trocava a Broadway pelos estúdios da Metro. Visconti, 32, amargava a frustração de não ter continuado como assistente de Renoir na direção de Tosca. Welles, 24, trabalhava em rádio, teatro e escrevia dois roteiros nunca filmados. Wilder, 33, mourejava como roteirista na Paramount. Godard, 9, estudava na Suíça. Glauber Rocha e Coppola faziam xixi na fralda.

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