Cinema político é destaque hoje na TV

Nada mais diferente de As Chuvas de Ranchipur que Cinzas e Diamantes. São as duas atrações de hoje da TV paga, mais exatamente do Telecine Classic, da Net/Sky. O filme de Clarence Brown, com Myrna Loy e Tyrone Power, de 1939, passa às 22 horas. O de Andrzej Wajda, com Zbigniew Cibulski, de 1958, à 1h40. Não é o melhor horário para se assistir a um filme, qualquer filme. Mas Cinzas e Diamantes vale o esforço. Quando se pensa no grande cinema político por volta de 1960 é impossível não lembrar da obra-prima de Wajda.A obra-prima. Outros filmes podem aspirar à classificação, mas só este a merece. Cibulski, o ator que, por seu carisma, era chamado de James Dean polonês, é o integrante da Resistência que, no último dia da 2.ª Grande Guerra, é encarregado de matar um líder comunista. Wajda parte daí para fazer a síntese dos problemas nacionais da Polônia, após a Guerra. A ação dura 24 horas, durante as quais o artista discute o destino individual à luz da grande história. O personagem chama-se Maciek, que também seria o nome do protagonista de O Homem de Ferro, nos anos 80. Só que, além de desiludido como o Maciek do filme sobre o sindicato Solidariedade, o do trabalho mais antigo também é trágico. É o que faz a grandeza de Cinzas e Diamantes, um filme que venceu a batalha do tempo. As Chuvas de Ranchipur é de outra categoria. Sua ambição não é exatamente política. O diretor Brown, às vésperas do início da 2.ª Grande Guerra, não queria criar uma nova estética política. O homem que ganhou fama como "diretor de Greta Garbo", assinando alguns dos melhores filmes da estrela que entrou para a história como a Divina, baseou-se no romance de Louis Bromfield. Anos mais tarde, nos 50, a história seria refilmada por Jean Negulesco, com Lana Turner e Richard Burton. Na versão antiga, Myrna Loy é a aristocrata inglesa que, na Índia, se apaixona por um médico local (Power). A chegada das chuvas provoca uma tragédia e precipita a solução para a complicada relação dos dois. O filme é espetacular ao extremo e é ele que os críticos tomam como referência quando querem dizer que Brown poderia ter sido um ótimo diretor de aventuras, se não preferisse as narrativas de caráter romancesco e psicológico, que, no fundo, sofriam mais a pressão dos grandes estúdios e eram estruturalmente mais convencionais. Açucarado (em Virtude Selvagem), dirigiu o melhor Faulkner do cinema, o impressionante O Mundo não Perdoa. Não representa pouca coisa.

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