Claudio Onoratti/EFE
Claudio Onoratti/EFE

Cinema perde Claude Chabrol

Com fama de preguiçoso, o mais gourmet dos cineastas chegou aos 80 anos e fez cerca de 60 filmes que criticaram a burguesia com humor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2010 | 00h00

Está sendo um ano devastador para os últimos remanescentes da nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960. Em janeiro, morreu Eric Rohmer, o autor dos contos morais e das comédias e provérbios. Ontem, foi a vez de Claude Chabrol. Rohmer tinha 90 anos. Chabrol, 80. A causa da morte do cineasta não havia sido revelada até o fechamento desta edição.

Nascido em Paris, de uma família de farmacêuticos, ele passou a infância e a adolescência em Creuse, no interior da França. Regressou à capital para cursar letras e farmácia, mas a cinefilia o encaminhou para a crítica, que exerceu em Cahiers du Cinéma. Com seus colegas de geração (Rohmer, Jean-Luc Godard, François Truffaut etc), fez a passagem para a direção.

O primeiro longa, Le Beau Serge, Nas Garras do Vício, foi feito em 1958, com parte do dinheiro que sua mulher havia recebido como herança. No ano seguinte, Os Primos conheceu um estrondoso sucesso, consolidando também as carreiras de Jean-Claude Brialy e Gérard Blain, os atores que o cineasta usara em seu longa de estreia. Os dois filmes formam uma espécie de simetria inversa. No primeiro, um jovem da capital volta à cidade em que nasceu e reencontra o problemático melhor amigo. Em Os Primos, o jovem do interior perde-se em Paris no ambiente perverso habitado pelo parente.

Após esse começo promissor, Chabrol tornou-se, com Godard e Truffaut, um dos chefes de fila da nouvelle vague. Apesar da fama de preguiçoso, ele foi um dos diretores mais prolíficos revelados pela nouvelle vague - 50 e tantos longas, sem contar os curtas e esquetes. Em meados dos anos 1960, Chabrol, em crise autoral, começou a fazer filmes comerciais (aventuras policiais com os personagens Tigre e Marie Chantal). Mais tarde, ele definiria esta fase - "Sempre filmei não importa o quê, mas nunca não importa como." O estilo é a chave, é o que faz a autoria, dizia.

Chabrol ressurge com As Corças, Les Biches, que fez em 1968, com Stephane Audran e Jacqueline Sassard. Ele se casou com a primeira e, no biênio 1969 1969/70, atingiu a perfeição do seu estilo por meio de um punhado de filmes que se tornaram clássicos (e cults) - A Mulher Infiel, A Besta Deve Morrer (o único que não é interpretado por Stephane), O Açougueiro e Trágica Separação. Se fosse para escolher um só dos quase 60 filmes de Chabrol, seria Le Boucher, O Açougueiro. Jean Yanne faz o personagem título. Vive numa pequena cidade. Stephane é professora na escola local. Ela se envolve com o boucher, que revela uma natureza perturbadora. Crianças estão sendo mortas nas redondezas. Você pode imaginar o que está ocorrendo.

Ferino e inteligente. Quinze anos antes, Chabrol e Truffaut, como aprendizes - repórteres - haviam visitado o set de Alfred Hitchcock, quando ele fez na Riviera Ladrão de Casaca, com Grace Kelly e Cary Grant. Ambos adoravam o mestre do suspense (e o gênero policial), mas enquanto os policiais de Truffaut são hitchcockianos, os de Chabrol se inscrevem mais na vertente de Fritz Lang, com seu conceito do destino trágico. Gourmet - ele próprio gostava de dizer que situava suas locações perto de onde podia comer bem -, Chabrol era também bem humorado, ferino e inteligente. Sua obra investiga a burguesia, especialmente a interiorana. Compõe o que não deixa de ser, no cinema, o equivalente da Comédia Humana de Balzac na literatura.

Como outros grandes diretores, Chabrol forma uma equipe com colaboradores valiosos - o fotógrafo Jean Rabier, os músicos Paul Misraki e Pierre Jansen Magne etc. Brialy, o ator favorito do seu começo, tem uma espécie de equivalente em Isabelle Huppert, com quem o autor fez vários filmes na sua fase mais recente (de Um Assunto de Mulheres e Mulheres Diabólicas a A Comédia do Poder). Chabrol conseguiu sintetizar seu amor pelo cinema e pela culinária nos filmes do inspetor Lavardin, que fez com Jean Poiret, Le Poulet au Vinaigre é duplamente delicioso. Além dos livros que se escreveram sobre ele, há um sobre gastronomia, com as receitas dos pratos que os personagens comem em seus filmes.

FILMES ESSENCAIS

Nas Garras do Vício

(Le Beau Serge), 1958

Os Primos

(Les Cousins), 1959

Mulheres Fáceis

(Les Bonnes Femmes), 1960

A Mulher Infiel

(La Femme Infidèle), 1969.

A Besta Deve Morrer

(Que la Bête Meurre), 1969

O Açougueiro

(Le Boucher), 1970

Trágica Separação

(La Rupture), 1970

Amantes Inseparáveis

(Les Noces Rouges), 1973

Alice ou A Última Fuga (Alice ou La Dernière Fugue), 1976

Violette Nozière, 1977

Poulet au Vinaigre, 1984

Um Assunto de Mulheres

(Une Affaire des Femmes), 1988

Madame Bovary, 1991

Ciúme - O Inferno do Amor Possessivo (L"Enfer), 1993

Mulheres Diabólicas

(La Cérémonie), 1994

Negócios à Parte

(Rien ne Va Plus), 1997

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