Evelson de Freitas/AE-5/5/2010
Evelson de Freitas/AE-5/5/2010

Cinema Paradiso

Com cada vez menos cinemas de rua, cidade perde charme e encanto

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

A eficiente movimentação popular e um certo interesse político conseguiram dar uma sobrevida ao Cine Belas Artes, que fecharia suas portas na quinta-feira - agora, as seis salas continuam em funcionamento ao menos até o fim de fevereiro. Uma chance que outros portentosos cinemas de rua de São Paulo não tiveram e, hoje, ou vivem à espera de uma nova ocupação (como o Comodoro, na Avenida São João) ou se transformaram em outros estabelecimentos (livraria, como o Astor, ou igreja, como o Metro).

Se o Belas Artes fechar as portas na Rua da Consolação, o número de cinemas fora de shopping centers torna-se mais magro - restam o Marabá no centro, o Espaço Unibanco, a Reserva Cultural e o CineSesc na região da Avenida Paulista, e o Cine Sabesp, o Lumière e o Itaim Paulista nos bairros. "São Paulo sem cinemas de rua fica mais triste e violento e muito menos interessante", já alertava o colunista do Estado Matthew Shirts, em 2003.

E menos charmoso, é possível acrescentar. Afinal, décadas atrás, havia um autêntico cerimonial a ser cumprido a cada ida ao cinema. O Metro, por exemplo, na Avenida São João, o primeiro a ter ar condicionado no Brasil, não permitia a entrada de espectadores que não estivessem devidamente trajados, hábito seguido por outras salas requintadas.

Como o Marrocos, na Rua Conselheiro Crispiniano, hoje declarado de utilidade pública - era proibido entrar sem gravata, mas um porteiro ajudava os esquecidos e alugava uma peça aos que vinham apenas com paletó. E, na ampla sala de espera, havia uma chapelaria.

Também confortável era o Rivoli, na mesma São João, onde depois funcionou o Ritz até os anos 1980. Em sua fase dourada, era de luxo, tinha poltronas numeradas e estreou com A Volta ao Mundo em 80 Dias, em Todd-AO, sistema de tela larga patenteado por Mike Todd, milionário que foi casado com Elizabeth Taylor e que morreu em um desastre de avião, depois de ter dado a ela o maior diamante do mundo.

Até o início da projeção era celebrado como uma cerimônia: no Astor, sala de mais de mil lugares instalada dentro do Conjunto Nacional, quando era chegada a hora da sessão, a música ambiente (algo como Ray Conniff e genéricos) era interrompida pelo som de um gongo. Imediatamente, as cortinas vermelhas se abriam enquanto as luzes aos poucos se apagavam.

Já a sensação de invadir a tela - trunfo dos atuais longas em 3D - era oferecida pelo sistema Cinerama. Na verdade, um conjunto de três telas que, unidas, praticamente ocupavam todo o campo de visão do espectador. O Comodoro, na São João, era um dos mais conhecidos, especialmente por conta de seu som amplificado. A proximidade com o real fez com que o espaço fosse o preferido para os filmes-catástrofe dos anos 1970, como Inferno na Torre e Terremoto, cuja sensação de tremor era tamanha que houve caso de espectador desavisado que deixou a sala suspeitando de que o prédio balançava.

Bastava atravessar a avenida para se chegar ao Cinespacial, uma curiosa e original forma de exibição de filmes, projetado pelo arquiteto Emilio Guedes Pinto em 1967. Eram três telas colocadas lado a lado, formando um círculo. Também a plateia era dividida em três setores, cada um com poltronas de encosto alto e reclinável voltadas para uma tela. O melhor era a cabine de projeção: suspensa no meio da sala, na mesma altura das telas, contava com apenas um projetor, dotado de espelhos e lentes especiais que multiplicavam as imagens do filme, projetando-as simultaneamente nas três telas.

Naquele mesmo ano de 1967, nasceu o Belas Artes, depois da reforma do antigo Cine Trianon. A programação era definida pela Sociedade Amigos da Cinemateca. Além das três salas de projeção, o cinema realizava pequenos espetáculos de teatro, música e dança, em um palco equipado com refletores e sistema de som. Havia ainda uma galeria para exposições e um estande para venda de livros e discos.

Diferencial que conquistava admiradores. "Sou belas-artesiano há décadas", escreveu Ignácio de Loyola Brandão, no ano passado. Como vários frequentadores, ele admite os defeitos das salas, mas acredita no encanto do cinema de rua - esse, eterno.

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