Cinema nacional reforça preconceito contra gays

Se fosse realizada uma CPI cinematográfica para apurar a representação preconceituosa de personagens homossexuais em filmes brasileiros, poucos diretores escapariam de sanções. Bruno Barreto, Arnaldo Jabor, Antonio Carlos Fontoura, Neville d´Almeida, entre muitos outros, poderiam ser julgados por contribuir para a "duplicação de estereótipos negativos do homossexual brasileiro". Caso houvesse um painel para registrar a incidência dessas atitudes, dados referentes à produção de 1923 a 1996 já estão prontos. E os resultados estão longe de serem politicamente corretos. De 67 títulos estudados para avaliar "o teor do discurso de abordagem do personagem homossexual", 42 (ou 62,68%) foram considerados pejorativos, 17 (25,38%) não-pejorativos, e 8 títulos (11,94%), dúbios".Esses dados fazem parte do livro A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro, baseado na dissertação de mestrado defendida por Antonio Moreno no Instituto de Artes da Unicamp em 1995, que acaba de ser lançado pela editora Funarte/Eduff. Professor de cinema de animação da Universidade Federal Fluminense, diretor de vários curtas (Reflexo, Ícaro e o Labiritino, Eclipse), Antonio Moreno diz que a tese surgiu de sua perplexidade diante do tratamento de homossexuais pela produção nacional. Das representações risíveis e caricatas das chanchadas aos filmes mais realistas dos anos 70 e 80, esses papéis raramente escapavam de um apresentarem um perfil "perverso, devasso, caricato".Moreno lembra ainda outra motivação: "Se um jovem que se descobrisse homossexual fosse procurar algumas referências nesses filmes, ele se mataria; a grande maioria dos filmes brasileiros revela um universo homossexual obscuro, negativo, e o cinema é um fornecedor de universos, tabus, segredos, funcionando também como reforço de atitudes da sociedade", diz. Ele cita como um dos filmes "disparadores" da pesquisa Amor Bandido, de Bruno Barreto, de 1978, no qual, curiosamente, o homossexual aparece apenas em fotografia, depois de se jogar pela janela do prédio no qual dividia apartamento com a personagem principal, interpretada por Cristina Aché.Para Moreno, nesta ausência estava a maior evidência do preconceito: "Ao longo do filme, vários personagens referem-se a ele de forma terrivelmente pejorativa; é um personagem que não aparece, que não tem voz para falar ou para se defender, que existe apenas como alvo de preconceitos."Para o estudo iniciado em 1991, Moreno garimpou a produção nacional e chegou a 127 títulos com personagens homossexuais (excluídos documentários, curtas e filmes pornôs), no período de 1923 a 1996. Cada título vem acompanhado de uma sinopse e da importância do papel do homossexual na trama.O preconceito, percebeu Moreno, vem de longe. E começou com o tom de galhofa de Anibal Quer Casar, de Luís de Barros, o primeiro da lista, no qual um aviador casa sem saber que "o noivo" era um travesti. O autor vasculhou arquivos, cinematecas, bibliotecas especializadas em busca de sinopses, referências e, obviamente, filmes. Conseguiu assistir a 67 (os demais foram perdidos), descritos com detalhes, e elegeu dez para análise do "teor do discurso" e do "gestual". Neste quesito, 30 filmes (44,77%) apresentaram gestualidade estereotipada, enquanto 35 (ou 52,23%) eram não-estereotipados. Do total, ainda conforme o cruzamento de categorias adotado, 29 filmes foram considerados "pejorativos e estereotipados", enquanto apenas 13 seriam negativos nas duas categorias.A tese de Antonio Moreno, no entanto, não se restringe à exibição de dados estatísticos. Com base na avaliação dos filmes, elaborou uma espécie de censo, com características nada abonadoras - para os personagens e para os diretores, segundo a visão do autor: "De um modo geral, são personagens alienados da realidade político-social, com baixo nível de instrução, linguajar chulo e só se preocupam com sexo; têm profissões variadas, mas a maioria vive de subemprego, mostram comportamento agressivo e usam, freqüentemente, um gestual feminino exacerbado", resume.No período estudado, Antonio Moreno aponta poucos filmes que apresentem uma visão mais real ou poética do "amor que não ousava dizer seu nome", segundo Oscar Wilde. E destaca O Menino e o Vento, de Carlos Hugo Christensen, Vera, de Sérgio Toledo, Pixote e O Beijo da Mulher Aranha, como "bons exemplos". Já entre os "filmes com teor pejorativo", cita Rainha Diaba e Espelho da Carne (Antonio Carlos Fontoura), O Casamento e Toda a Nudez Será Castigada (Arnaldo Jabor), A Ópera do Malandro, de Ruy Guerra, entre muitos outros.Para Moreno, nem sempre os diretores estão "conscientes" desta representação negativa do homossexual: "Muitas vezes, eles apenas reproduzem os estereótipos sociais devolvendo à sociedade o que recebe dela; de qualquer forma, com essas representações, reforçam estereótipos e preconceitos - até porque o cinema tem a tendência de reforçar as evidências", pondera. O pesquisador observa que raramente o homossexual é protagonista de um filme. Geralmente é uma figura humana diminuída ou figurante cômico, extravagante, utilizado como "recurso de escalada social, prática anormal, tara, exibicionismo ou meramente uma nova experiência sexual". E comenta: "Esse quadro é reforçado pelo gestual estereotipado que compõe um gay clown ou homopalhaço, nos quais o apelo ao riso é uma constante." Este modelo se desdobraria em "rádios, teatro, TV (programas humorísticos e novelas)". Resume: "Tem sido um modelo cruel, marcado pelo preconceito e a incompreensão, o deboche e a caricatura."Em comparação com o cinema estrangeiro, o nacional ainda teria muito a caminhar nesta questão, diz Moreno. Ele lembra o impacto ao assistir Minha Adorável Lavanderia, de Stephen Frears, "um documentário antropológico, que não se escandaliza com o que está mostrando, não comenta o gesto - tudo é revelado com extrema naturalidade". Elogia também a desmistificação promovida por Pedro Almodóvar, "que aborda o sentimento do universo homossexual de uma forma contemporânea: os gays de seus filmes não estão no gueto, estão na sociedade". Ainda não assistiu à série Os Assumidos, seriado com protagonistas homossexuais, mas em tese prefere a postura de "tirar o filme sobre gay do gueto gay, deste espaço reservado pelo estereótipo que vem merecendo ao longa da história do cinema brasileiro".Moreno concluiu o texto do livro em 1996. Desde então, embora constate que "o preconceito continua", reconhece exemplos de atitudes "mais contemporâneas". Ele dá nota zero para O Dia da Caça, de Alberto Graça: "O travesti Vander (Paulo Vespúcio) é apresentado como um ser cruel, doido, perverso, reforçando a imagem do homossexual como um desequilibrado emocional, sem falar de seus trejeitos, super-fake." Em compensação, aplaudiu Até Que a Vida nos Separe, de José Zaragoza, e Amores Possíveis, de Sandra Werneck - "Filmes que mostram os espaços reais por onde os gays trafegam, os ambientes não são falsos e nem os personagens." E conclui: "Não acho que o gay deva ser mostrado como mártir ou herói pelo cinema, mas como uma pessoa integrada, com um tratamento mais real, mais contemporâneo e mais aberto para a discussão."

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