Cinema de lágrimas

Temporada de Steven Spielberg começa com Cavalo de Guerra, uma epopeia fordiana, sentimental, não piegas

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2012 | 03h07

Começa a temporada de Steven Spielberg, com dois filmes. O primeiro a chegar às telas do Brasil - hoje - é Cavalo de Guerra. O próximo, em duas semanas, será As Aventuras de Tintin. Dois filmes em tudo diferentes, em técnica e estilo, bem como Steven gosta. Tem sido assim desde seu começo. Ele alterna obras 'sérias' - a extraordinária trilogia formada por O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, que dá o mais acurado testemunho sobre os EUA pós-11 de Setembro, sem que seja feita uma só referência às torres gêmeas - com admiráveis exemplos de cinema 'diversão'. Uma tendência alimenta a outra e ambas compõem uma das carreiras mais sólidas do cinema.

Os críticos demoraram a entender, ou a aceitar, a complexidade de Steven Spielberg. Diziam que ele fazia um cinema infantil, como se fosse uma criança se recusando a amadurecer. A síndrome de Peter Pan foi invocada a propósito de Império do Sol, em 1987. A guerra, segundo Spielberg. Ele ganhou seus dois Oscars de direção por outros dois filmes ambientados durante a 2.ª Guerra Mundial - A Lista de Schindler, em 1993, feito no mesmo ano do primeiro Parque dos Dinossauros, e O Resgate do Soldado Ryan, em 1998. Spielberg retrocede agora à 1.ª Guerra em Cavalo de Guerra. Em As Aventuras de Tintin, ele põe na tela o pequeno herói de Hergé como você nunca viu - como um jovem Indiana Jones, e utilizando-se da tecnologia digital.

Foi a produtora Kathleen Kennedy, parceira de Spielberg desde 1978, quem adquiriu, para ele, os direitos do livro de Michael Morpurgo. Spielberg duvidava que fosse um bom material para ele, mas só até que Kathleen o convencesse a assistir à montagem teatral (e musical) em Londres. Spielberg apaixonou-se, e agora nos convida a compartilhar sua paixão. É a história da ligação entre um jovem e um cavalo. As primeiras cenas prescindem de diálogo. O diretor conta, por meio da imagem e da música, a história do cavalo, até ser adquirido pelo pai do herói no leilão.

Parece a vitória de Pirro. O pequeno fazendeiro Peter Mullen compra o potro, mas paga um preço exorbitante, ao qual o atira David Thewlis, justamente o senhorio que lhe arrenda suas terras. A história passa-se na Irlanda e os atores imediatamente evocam a nata do cinema inglês - Mullen, o cinema de Ken Loach; Thewlis, o de Mike Leigh. A mãe é Emily Watson, de Ondas de Destino, de Lars Von Trier. O cavalo não é adequado para trabalhar no campo. Sem dinheiro para pagar as dívidas, a família poderá perder suas terras. Vem a primeira grande cena.

O arado sulca um terreno pedregoso. O animal parece que vai arriar. Há um clima insano de torcida, pró e contra. O 'capitalista' e seus asseclas, de um lado, os humildes, de outro. Começa a chover. Num solavanco, o cavalo, impulsionado por Albie, o garoto, arranca a primeira pedra e logo o campo todo estará arado. A primeira parte de Cavalo de Guerra é uma epopeia fordiana. Spielberg já havia homenageado John Ford em E.T., por meio da citação a Depois do Vendaval. Aqui, reconstitui Vinhas da Ira e Como Era Verde Meu Vale, dois dos quatro Oscars de direção de Ford.

Mas o cavalo tem de ser vendido para saldar dívidas, e passa a integrar o Exército. A partir daí, Spielberg mergulha de novo no inferno da guerra, como em Schindler e Soldado Ryan, atando duas pontas - a história de Albie e a do cavalo. Ele filma o horror das trincheiras e a cena em que soldados de diferentes nacionalidades se unem para salvar o animal. Essa última parte retoma o tema de ...E o Vento Levou, de Victor Fleming - o difícil retorno ao lar. Quatro milhões de cavalos morreram na 1.ª Guerra. Spielberg resume a história de todos em um só. Cavalo de Guerra é o Soldado Ryan do mundo animal. Uma história de superação, de amadurecimento. Sentimental, por momentos; dura, muitas vezes, como Ford, o mestre, gostava. O mais importante é que Cavalo de Guerra mostra como a guerra projetou a Europa, e o mundo, no século 20. Um grande filme.

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