Cinema de guerrilha feito no Brasil

Três servidores da Ancine finalizam produção sem nenhum patrocínio

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2011 | 00h00

Três amigos de faculdade, três caminhos diferentes pós-formatura, e uma ideia fixa: filmar um longa-metragem. A natural dificuldade de se conseguir patrocínio não foi obstáculo forte o suficiente. Partiram para o tal cinema de guerrilha: buscaram permutas com diferentes empresas, sacaram dinheiro próprio, perseveraram por cinco anos para dar cabo do projeto.

O roteiro dessa história não é incomum entre apaixonados pela atividade. Curioso é o fato de eles serem servidores da Agência Nacional de Cinema, o órgão instituído há uma década para dar gás a toda a cadeia produtiva do audiovisual, além de regulá-la. Isso significa que, por questões éticas, "pela impossibilidade de estar dos dois lados do balcão", não há dinheiro público envolvido.

Daniel Mattos e Marcial Renato, de 36 anos, e Marcos Felipe Delfino, de 35, fizeram concurso para o cargo de especialista em regulação da atividade cinematográfica. Atualmente, o primeiro é membro do comitê de investimento do Fundo Setorial do Audiovisual - justamente o instrumento criado para ajudar realizadores que vivem recebendo "não" das empresas financiadoras -, o segundo, coordenador de acompanhamento de projetos, e o terceiro, assessor da superintendência de fomento.

Ou seja, os três conhecem bem o metiê. O que não tornou mais fácil realizar o sonho do filme próprio. "Em 2000 aprovamos o primeiro projeto de longa em todas as leis de incentivo. Durante três anos batemos na porta das empresas. Para iniciante, é muito difícil, está tudo meio loteado", lembra Marcial.

"A empresa que investe não é da área de cinema, quer lucro. É uma "lógica jabuticaba", só existe no Brasil. O cara que não conhece nada dá dinheiro para o nome famoso. A barreira de entrada é muito cruel, a grande maioria dos novos cineastas fica marginalizada", completa Daniel.

O tal projeto, voltado para o público jovem, "tipo Muita Calma Nessa Hora ou Desenrola", lhes parecia viável e promissor: filmar num shopping, com atores jovens e um nome conhecido, o do ator Danton Mello. Mas nada de vir o dinheiro, e a desistência foi o caminho.

A frustração os levou ao concurso para Ancine. Entraram "por militância", mesmo sabendo que o novo trabalho dificultaria um futuro filme. Nas horas livres, escreveram a seis mãos o roteiro de Dia de Preto, que agora finalizam. Como? Filmando de sexta a domingo, quando deveriam estar em casa com os filhos (são sete, somando as famílias), desembolsando gradualmente R$ 270 mil das economias, contraindo dívidas.

E negociando uma permuta para alimentar a equipe, caprichando num "rascunho", feito com câmeras amadoras, para que na hora do "ação!" tudo estivesse amarrado. E fechando acordo com um shopping para locação, e com uma produtora de filmes publicitários, que cedeu câmera (digital), luz e maquinaria, e se tornou sócia. A trilha seguiu na mesma linha. Os atores trabalharam de graça.

Todos esperam a participação nos resultados do filme, rodado em 14 meses. Sem as permutas, os custos desse "no budget" - "sem orçamento", como é chamada a modalidade, nascida há décadas entre jovens cineastas, e que no Brasil tem em Odiquê? (2006), de Felipe Joffily, um representante - chegariam perto R$ 1 milhão.

O roteiro é criativo, a fotografia, bem cuidada, os cenários, parte nos dias de hoje, parte no século 17. O protagonista (Marcelo Batista) é um escravo alforriado bem antes de 1888 (o primeiro do Brasil), e é também um motorista de uma família rica do século 21. Ele acaba acusado de um roubo que não cometeu. É um filme autoral, com ação e suspense, e "referências da cultura pop".

O "power trio", que conta com o apoio e a solidariedade dos colegas da Ancine, divide o crédito de diretor. No momento, está inscrevendo Dia de Preto em festivais. Assim ele ganharia visibilidade e faria sua carreira no circuito comercial. Nem na etapa da pós-produção (que já dura três anos) e distribuição (que geralmente é paga pelos produtores) vão tentar recursos públicos.

"Estimamos a distribuição em R$ 500 mil. Se eu fosse o Andrucha (Waddington) ou o (José) Padilha, conseguiria que o distribuidor entrasse no risco com a gente. Como não somos, precisamos do aval de festivais", diz Marcos Felipe.

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