Cinema de clássicos e experimentação

Haja fôlego para o cinéfilo paulistano. A sétima edição do Festival Latino-Americano termina hoje e hoje mesmo começa a Mostra Sesc de Artes, que contempla várias modalidades e mídias. O cinema está bem servido no evento, que programou desde uma retrospectiva de Guy Maddin, com sua imersão no experimentalismo, até versões restauradas de clássicos de Luchino Visconti e Blake Edwards e a revisão de muitos filmes em 3D. A palavra de ordem é prioridade à estética e ao pensamento contemporâneo.

LUIZ CARLOS MERTEN , O Estado de S.Paulo

19 Julho 2012 | 03h11

A retrospectiva de Guy Maddin é, em si mesma, quase uma homenagem a Leon Cakoff, que amava o diretor canadense, exibiu todos os seus filmes, cooptou-o a fazer o cartaz da Mostra e o trouxe a São Paulo, como jurado. Maddin é autor de curtas e longas experimentais. Sua especialidade é a recriação do look de filmes antigos, especialmente silenciosos, o que ele faz com criatividade e inteligência. O passado como fonte de experimentação e ousadias também tem sido uma praia de Martin Scorsese, que, a par de sua atividade como diretor, criou uma fundação que se dedica ao restauro de clássicos ameaçados.

Este ano, Scorsese foi indicado para o Oscar por A Invenção de Hugo Cabret. O longa, em 3D, perdeu para o francês O Artista, de Michel Hazanavicius, mas ambos remetem ao cinema silencioso, o de Scorsese por meio da trajetória desse garoto que recupera um mestre esquecido - inspirado no lendário Georges Méliès, dublê de mágico e cineasta que fez, em 1902, o clássico Viagem à Lua. A programação em 3D do evento apresenta Contos da Noite, do francês Michel Ocelot, cujo Kiriku virou cult no Espaço Unibanco e até hoje é requisitado para sessões no Projeto Escola, destinado às formação de novas plateias. Ocelot passou a infância na África e trouxe de lá seu gosto pelas narrativas orais que envolvem feiticeiras e animais selvagens. Em Contos da Noite, ele reata com a tradição das Mil e Uma Noites. O visual do filme é suntuoso e o 3D realça a noção de profundidade nos planos.

O próprio Scorsese, porém, haveria de concordar que as pérolas da programação de cinema na Mostra de Artes são os clássicos restaurados de Visconti e Edwards. Burt Lancaster, na pele do príncipe Salinas, vai dançar de novo a valsa com Claudia Cardinale e, enquanto o aristocrata e a burguesa rodopiam no salão, o que Visconti mostra em O Leopardo é um momento de transição histórica. O mundo está se transformando, uma nova classe, detentora do dinheiro, afirma seu poder e as coisas, como diz Tancredi (Alain Delon) têm de mudar para que tudo fique na mesma.

O Leopardo, adaptado do romance de Giuseppe Tommaso di Lampedusa, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, 1963. Dois anos antes, Moon River ganhou o Oscar de canção. Ver e ouvir Audrey Hepburn, como Holly Golightly, cantar a canção de Henry Mancini em Bonequinha de Luxo é prazer ao qual cinéfilo nenhum deve se furtar. É um dos mais belos filmes (o mais?) de Edwards.

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