Patrick Swire/Divulgação
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Cinema cantado

Quando não faz filmes, Agnès Jaoui canta na banda She & Him

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

Roteirista e atriz de Alain Resnais (Smoking/No Smoking e On Connait la Chanson/Amores Parisienses), atriz e realizadora de O Gosto dos Outros, que virou cult e foi visto por mais de 100 mil espectadores em São Paulo e Rio, Agnès Jaoui está no Brasil para mostrar outra dimensão - ou face - do seu talento. Ela participa da Virada Cultural apresentado-se em Jundiaí amanhã. Agnès tem uma banda, a She & Him. E vem cantar Chico Buarque.

Como se fosse uma mão dupla, as canções de Chico, transformadas em roteiro de filme, estarão em Cannes na próxima semana, quando O Abismo Prateado for apresentado na Quinzena dos Realizadores. O diretor Karim Aïnouz diz que as músicas de Chico dissecam a alma e a sensibilidade das mulheres. Agnès Jaoui faz eco de suas palavras. "É impressionante como, sendo homem, ele consegue expressar tão bem o desejo feminino."

Se você quiser apostar o que ela vai cantar, pode estar certo de que Olhos nos Olhos integra a seleção. "Quando você me deixou / meu bem..." A poesia de Chico é "bárbara", ela define. Agnès fala um português razoável, mas com sotaque de Portugal. Sua doméstica é portuguesa. Ela nasceu na França, filha de tunisianos. O marido é da Argélia. Sua banda tem integrantes de Cuba e Argentina. "É um som que me interessa muito. Meu novo CD, como o show que vou apresentar no Brasil, chama-se Dans Mon Pays, No Meu País", explica em entrevista por telefone.

Que país é esse? "Não é a França, não é o Brasil nem Cuba nem a Argentina. É uma construção meio fictícia de todos esses países, criando uma multi-identidade cultural."

Uma espécie de liberdade poética lhe permite agregar diversos sons - tango, flamenco, fado. "Espero que os brasileiros gostem desse caldeirão. Eu amo o Brasil e tive o prazer de encontrar aí muita gente que entendeu e se identificou com o meu trabalho de cineasta. Espero que a música abra uma nova torrente de entendimento."

Agnès canta há tempos. Como soprano, apresenta-se regularmente em concertos na França. "O fato de me haver formado na ópera foi libertador. Uma cantora de ópera é necessariamente multilíngue, tem de cantar principalmente em alemão e italiano. Some a isso o francês... Na ópera a gente não apenas canta - representa. Muda o timbre, a voz, o tom. Tudo isso e mais o encontro com esses maravilhosos músicos do sul e ibero-americanos tornou fácil para mim gravar em português ou espanhol."

Sua ligação com o Brasil ultrapassa a música, pois ela adotou duas crianças brasileiras. De onde vem esse amor pelo Brasil? "Do meu pai. Foi por intermédio dele que conheci Vinicius de Morais, Tom Jobim. Mais tarde conheci a Ópera do Malandro, de Chico, e aí o Brasil me conquistou de vez. Não parou de me conquistar, com Maria Bethânia e Caetano. Ainda tive a felicidade de fazer sucesso com meus filmes no mercado brasileiro."

Aproveitando a presença de Agnès Jaoui no Brasil, está previsto para estes dias um ciclo de seus filmes. O mais conhecido é O Gosto dos Outros, que ela escreveu com seu marido (e ator), Jean-Pierre Bacri, mas antes disso a dupla já havia recebido o César por Smoking/No Smoking. Mas foi com Le Gout des Autres que Agnes iniciou uma conversa sobre relações no pós-feminismo que prosseguiu em Questão de Imagem, que recebeu prêmio de roteiro em Cannes, e Enquanto o Sol Não Vem, Parlez Moi de Pluie, que também trata de racismo, discutindo a situação dos imigrantes na França.

Essa ampla gama de temas integra um projeto baseado na simplicidade e na honestidade. "Tudo o que quero é colocar personagens reais na tela, com quem os homens e mulheres do público possam se identificar."

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