"Cinema Brasileiro" transforma cinema em objeto de reflexão

A definição do título é, provavelmente, um dos momentos mais difíceis e motivo de muitas incertezas e angústias para o autor de um livro. Quando a escolha é infeliz pode trazer conseqüências danosas, como atrapalhar a sua recepção no mercado editorial. Além disso, não se deve confiar demais no discernimento crítico dos leitores. Estes, ao contrário do que é recomendável, muitas vezes, se deixam influenciar por capas bonitas ou títulos atraentes. Nestas condições, Cinema Brasileiro (Anos 60 e 70) ? Dissimetria, Oscilação e Simulacro, de Luiz Cláudio da Costa, lançamento da Editora 7 Letras, dificilmente se tornará um best seller. Aliás, nem o autor nem a editora devem nutrir tal expectativa. Este fato deve ser visto como uma virtude pois, em muitos casos, o best seller é um livro muito vendido, pouco lido, logo esquecido e, algum tempo depois, pode ser facilmente encontrado nas estantes empoeiradas dos sebos do centro da cidade.Após a leitura do livro, fica claro que o título não faz justiça às muitas qualidades do seu conteúdo (o subtítulo foi concebido em fontes pequenas, se comparadas às do título principal, que aparecem em destaque). O leitor mais apressado pensará que se trata apenas de uma síntese meramente descritiva das inúmeras películas nacionais produzidas ao longo das décadas de 60 e 70. A avaliação, neste caso, é enganosa e absurda, pois a obra em questão é, antes de mais nada, uma bela e convincente demonstração das amplas possibilidades de transformar o cinema em objeto de investigação e reflexão acadêmica.O seu autor, um jovem teórico e doutor em Comunicação pela ECO-UFRJ, deixa nítido, na introdução, o seu débito intelectual com os trabalhos de Ismail Xavier, notadamente o artigo ?Sertão Mar?. Neste texto, o professor da USP desenvolveu a análise comparativa de dois pares de filmes: Barravento e O Pagador de Promessas, e Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Cangaceiro. De fato, tanto no ensaio de Ismail Xavier como no livro de Cláudio da Costa é possível perceber que há a mesma preocupação: detectar as rupturas formais contidas principalmente na esfera da imagem fílmica.Assim, a leitura de Cinema Brasileiro indica, entre outros aspectos, que a partir do início dos anos 60 ocorreu uma profunda metamorfose no pensamento cinematográfico, cujos desdobramentos influenciaram diretamente a estética dos filmes nacionais. Tal mudança é um dos elementos fundamentais para compreender o livro e está consubstanciada na sua categoria analítica central: ruptura glauberiana; segundo esta, os filmes dirigidos por Glauber Rocha trouxeram uma linguagem radicalmente nova, perceptível principalmente na sua concepção de imagens: descentralizadas e errantes, que passaram a potencializar a fuga das partes em relação ao conteúdo. Com a ruptura levada a cabo pelo cineasta baiano, como afirma o próprio Cláudio, ?a imagem está pronta para errar em busca de seu próprio exílio?. A extensão das mudanças introduzidas pelo Cinema Novo teve como corolário a transformação da imagem num dispositivo indispensável para a configuração da realidade idealizada e construída pelos cineastas. Esta revolução estética e formal consubstanciou a emergência do cinema dissimétrico, outro conceito importante para entender as idéias contidas no livro. A dissimetria alcançou a sua mais completa tradução em filmes como O Pátio e Terra em Transe, exemplos irrefutáveis das novas estruturas narrativas, pois, nestas películas, ?o transe e a histeria desfazem a ordem das partes e do todo?.Como demonstra Cláudio da Costa, a ruptura glauberiana teve como contraponto a imagem-cordial típica das produções cinematográficas da empresa paulista Vera Cruz, notadamente em filmes como Caiçara e Sinhá Moça. Nestas, predominou a hegemonia da montagem paralela e a sua obsessão em explicar para os espectadores as relações que devem ser estabelecidas entre os diferentes planos, fundamentando-se no dogma segundo o qual as partes somente fazem sentido quando relacionadas ao todo. Esta estratégia narrativa é, sem sombra de dúvida, uma das principais invenções do cinema clássico hollywoodiano e do seu produto mais acabado, o melodrama, que foi uma das maiores fontes de inspiração dos produtores e dos diretores da Vera Cruz.A rigor, a idéia central de toda a obra pode ser resumida na tese de que nos anos 60 e 70 ocorreu uma desestetização no cinema, que foi influenciada, em grande parte, pela revolução ocorrida nas artes visuais brasileiras durante a década de 50, sob o comando de Lygia Clark, o que não passou desapercebido pelos jovens cineastas que fundaram o Cinema Novo.Diante do exposto, o leitor poderá chegar a duas conclusões: (1) o livro, ao contrário do que possa sugerir o seu título, não se resume a simples descrições ou análises superficiais; e, (2) para compreender em toda sua plenitude as sofisticadas reflexões levadas a cabo por Cláudio da Costa, faz-se necessário verticalizar os seus conhecimentos e ampliar o seu sistema de referências, dominando conceitos de estética, arte, filosofia e cinema. Nunca é tarde para começar, principalmente quando se tem como orientador um pensador sério e sistemático e um livro instigante e original como este.Cinema Brasileiro (Anos 60 e 70) - Dissemetria, Oscilação e Simulacro - de Luiz Cláudio da Costa. Editora 7 Letras,162 págs., R$ 19,00.

Agencia Estado,

23 de setembro de 2000 | 18h02

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