Cinema à espera de reinvenção

Peter Greenaway, Para diretor, filmes teatrais, baseados em texto, estão datados. 'É preciso atualizar a indústria', diz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h12

Com os métodos sofisticados de que dispõe o homem moderno para se comunicar, o cineasta galês Peter Greenaway exaspera-se ao constatar como o cinema se obstina em colocar na tela a realidade em que estamos imersos. Parece-lhe um contrassenso e, com certeza, é um dos motivos pelos quais Greenaway não se cansa de bater na mesma tecla. Três anos depois de visitar o País pela última vez, ele voltou a São Paulo na segunda-feira e, na terça, falando para uma plateia de mil pessoas reunidas no seminário Fronteiras do Pensamento, na Sala São Paulo, anunciou mais uma vez que o cinema está morto. É verdade que o defunto resiste em ser enterrado e o próprio Greenaway continua filmando. Mas o cinema tradicional não dá mais, ele insiste. É preciso criar alternativas. A entrevista foi feita na tarde de terça-feira, na Cinemateca Brasileira. Greenaway visitou o local, encantou-se com o cenário. A instituição pretende lhe dedicar uma grande retrospectiva no segundo semestre. Sua preocupação era saber se a Cinemateca pode bancar telas de vários formatos e tamanhos para colocar o espectador 'dentro' de seu filme instalação, The Tulse Luper Suitcases.

Hollywood celebra com números o aumento do público. Os Vingadores 2 fez mais público na abertura que qualquer outro filme na história. Mas o senhor insiste que o cinema está morto. Por quê?

Assim como o cinema tem data de nascimento, a célebre sessão dos irmãos Lumière no Grand Café de Paris, tem também de morte. O cinema morreu naquele 30 de setembro de 1983 em que foi inventado o controle remoto. Isso acabou com a passividade do espectador e abriu possibilidades de interação. O que é o cinema, senão um aquário iluminado? As pessoas entram, sentam-se, a tela ilumina-se e fica todo mundo lá, olhando para a frente. É quase a mesma coisa que ocorria no teatro, no fim do século 19. Naturalmente, as câmeras se mexem e o filme com elas. Os filmes ficaram cada vez mais espetaculares e carregados de efeitos, mas a base não mudou e, para a audiência que hoje dispõe de celular, iPad e outros dispositivos de comunicação, a dinâmica não mudou. Continuamos tendo um cinema teatral, baseado no texto. É trágico que isso continue ocorrendo, até porque a literatura e o teatro se bastam e não necessitam do cinema, que insiste em ilustrar Harry Potter, Crepúsculo e O Senhor dos Anéis.

Mas um filme como Avatar, que o público do século 21 identifica como 'o' cinema, baseia-se numa realidade virtual, em que a imagem suplanta a palavra. O filme faturou mais do que qualquer outro na história.

Meu amigo, isso é subestimar a força da propaganda na manipulação das ideias e vontade do público. Avatar pode ter efeitos de última geração, mas não muda nada do que estamos conversando. Continuamos no aquário iluminado e permanece a ditadura da tela retangular.

Seu problema é a ditadura da tela, mas o senhor começou na pintura. Como situa sua evolução?

Comecei na pintura e já naquela época percebia as limitações do cinema. Não dá para permanecer atrelado a outras mídias e artes. Nestes anos todos, não tenho feito outra coisa senão tentar libertar o cinema de suas amarras. Isso significa aprofundar sua relação com a imagem. Veja, vivemos num mundo de imagens instantâneas. Posso filmar qualquer coisa e jogar a imagem na rede para que, em instantes, chegue aos meus amigos em Beijing. Há uma urgência nessa sociedade da imagem, em que as pessoas dão testemunho a toda hora, que o cinema tradicional não consegue acompanhar. Eu busco essa interação necessária para que o cinema se atualize como mídia.

O que o senhor está fazendo, atualmente?

Tenho muitos projetos, uns dez pelo menos. E eles extrapolam o cinema, incluem pintura e ópera. Mas, para permanecer nos filmes, todo cinéfilo acha que sabe tudo sobre a aventura inacabada de Sergei Eisenstein no México, após sua passagem pelos EUA, onde não conseguiu filmar Uma Tragédia Americana. O filme mexicano também nunca foi concluído e surgiram versões, montagens que não foram assinadas pelo próprio Eisenstein. Documentos liberados na Rússia dão conta de que Eisenstein, um homossexual reprimido na URSS, onde os gays eram, enviados para a Sibéria, perdeu sua virgindade aos 33 anos, no México.

Aos 33 anos, a mesma idade da Paixão de Cristo?

Tem tudo a ver, essa mistura de Eros e Tânatos, de sexo e religião, vida e morte. Mas o assunto é fascinante porque coloca em cheque tabus comportamentais, ao mesmo tempo que ilumina um artista de vanguarda.

O tema me atraiu e lhe pergunto: quando teremos esse novo filme pronto? Na segunda-feira que vem, já que estamos falando em urgência midiática?

Muito divertido, você. Se as mídias atuais permitem uma democratização e rapidez das imagens, o cinema continua sendo um meio caro. Não estou fazendo um filme desses, com grande riqueza de imagem, para jogar no YouTube. É coisa para o Festival de Cannes do ano que vem.

Algum outro projeto em andamento?

Pretendo fazer, na sequência, um remake de Morte em Veneza. Por mais prestigiada que a versão de Luchino Visconti tenha sido nos anos 1970, ainda havia tabus no enfoque da homossexualidade que ele não teve condições de transpor, até por ser homossexual e sentir o tema de maneira subjetiva e interiorizada. O 'meu' Morte em Veneza vai inverter o olhar e, ao invés da narrativa de Visconti e Thomas Mann, centrada em Eschenbach, quero revisar o tema do ângulo de Tadzio, o garoto. Pretendo reutilizar a trilha de Mahler, uma invenção de Visconti, mas vou evitar aquela maquiagem de cara derretida do Dirk Bogarde.

Seu cinema, mesmo querendo se libertar do texto, não deixa de se beneficiar dos atores. Helen Mirren e Michael Gambon (O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante), John Gielgud de novo A Última Tempestade. O que esses grandes atores lhe trouxeram?

O fato de querer restabelecer a origem da imagem no cinema não significa abrir mão da palavra no que ela oferece de compreensão e interpretação do mundo. Atores como Gambon e Gielgud, uma atriz como Helen Mirren oferecem gama praticamente infinita de modulações de voz. É como a música. Nunca deixei de me relacionar com compositores como John Cage, Michael Nyman. A musicalidade da voz enriquece a imagem.

Já o encontrei em Cannes, Veneza, no Rio, aqui mesmo em São Paulo. O que esta cidade tem de atraente para o senhor?

Quando vim a São Paulo pela primeira vez, há 15 anos, me surpreenderam a vibração e o gigantismo da cidade. Mas, mais que tudo, me surpreendeu que uma cidade tão moderna fosse sobrevoada por urubus. Comecei a tecer um roteiro sobre São Paulo. No meu filme, os urubus viram vampiros, mas, ao contrário dos tradicionais, que sugam sangue, os meus querem roubar o sêmen dos homens.

E o que falta para o senhor fazer o filme?

Como sempre, o dinheiro. Sabe de alguém que queira investir na produção?

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