Cinebiografias que mentem

Gênero está se modificando, foge da narrativa convencional e incorpora invenções bizarras

Ryan Gilbey, The Guardian, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Na abertura de Gainsbourg, cinebiografia sobre o lendário cantor, fumante inveterado e sedutor francês, vemos o astro nadando em meio a peixes que tragam baforadas de seus cigarros. Um pouco depois, ele é ameaçado por um monstro de quatro braços saído de uma propaganda nazista. E o pequeno detalhe de ele ser seguido por um fantoche que só ele pode ver.

Como percebemos, esta não é uma típica cinebiografia nem o único exemplo de como o gênero está se modificando. Esse tipo de filme costumava se ater à verdade, retratada por meio de uma narrativa convencional: o personagem nasce, vive, morre. Agora, recorrem a invenções, e até mentiras, para contar suas histórias. Um bom exemplo é Não Estou Lá, de Todd Haynes, no qual ele recorre a sete atores (entre eles Cate Blanchett e Richard Gere) para representar aspectos da vida criativa de Bob Dylan.

Levando-se em consideração The Runaways, um olhar sobre o início da carreira da roqueira Joan Jett, e Mr Nice, sobre a vida do traficante de drogas Howard Marks, será possível que, como afirmou no início do ano a revista americana Newsweek, a cinebiografia já esteja com a data de validade vencida? Um artigo intitulado Cinebiografias são coisas do passado? queixava-se de que, "nos últimos cinco anos, o gênero teria passado a transmitir a impressão de algo tão empoeirado e fora de moda quanto os volumes da Enciclopédia Britânica guardados no sótão da casa de seus pais".

Mas, num típico exemplo do olhar seletivo de Hollywood, a reportagem analisava só os filmes voltados ao grande público: obras moribundas como Amelia, sobre a vida da aviadora Amelia Earhart; Invictus, sobre o campeonato mundial de rúgbi de 1995; A Jovem Rainha Vitória, sobre a soberana inglesa; e Criação, sobre Darwin. Se nos referirmos a esta amostragem, o gênero de fato parece morto.

Mas se formos além do óbvio, logo fica claro que este é o gênero com o qual os cineastas mais radicais e experimentais têm trabalhado. Boa parte da coragem de Gainsbourg é fruto do material que inspira o filme, uma graphic novel do roteirista e diretor Joann Sfar, o mais recente artista a usar a cinebiografia como porta de entrada para o cinema. Marjane Satrapi foi corresponsável pela adaptação para as telas de sua graphic novel Persépolis, a história de sua infância no Irã e adolescência na Europa. O fotógrafo Anton Corbijn escolheu Ian Curtis, do Joy Division, como tema de seu Control, enquanto os artistas Steve McQueen e Sam Taylor-Wood fizeram suas estreias com estudos biográficos, de Bobby Sands e John Lennon, respectivamente (Hunger e Nowhere Boy).

Sem sombra de dúvida, essas cinebiografias são de estilo pós-moderno, com heróis e estruturas que fogem ao convencional.

Todd Haynes é o rei deste gênero. Em 1987, muito antes de Não Estou Lá, e usou bonecas Barbie para contar a história de Karen Carpenter, num bizarro programa chamado Superstar. Então, produziu Velvet Goldmine, versão ficcional da fase de David Bowie como Ziggy Stardust.

Glenn Gould. A mais radical das cinebiografias modernas é provavelmente O Gênio e Excêntrico Glenn Gould, dirigido em 1993 por François Girard, que dividiu a vida do pianista canadense em fragmentos e deixou que o espectador os montasse. E em A Festa Nunca Termina (2002), sobre Tony Wilson e a gravadora Factory Records, de Manchester, encontramos todo tipo de tolice pós-moderna, como por exemplo o momento em que Howard Devoto (das bandas Buzzcocks e Magazine) aparece para denunciar como falsa uma cena à qual estamos assistindo.

Para Frank Cottrell Boyce, roteirista de A Festa Nunca Termina, a cinebiografia de formato livre é a mais genuína. "A estrutura de um filme é algo incrivelmente convencional, mas a vida não segue esse modelo. Assim, editamos a vida para que ela caiba na estrutura. Ou pode-se fazer aquilo que prefiro, ou seja, jogar a vida contra a estrutura e fazê-la desabar."

Johnny Cash. Ele destaca Johnny e June, de 2005, como exemplo de como uma cinebiografia não deve ser feita. "O filme reduz Johnny Cash, que era um homem que se debatia contra o cosmos, que se importava em justificar-se perante Deus. E o que o filme mostra é um sujeito que tinha alguns problemas com o pai." Quando Girard começou a escrever O Gênio e Excêntrico Glenn Gould, ele também reconheceu as armadilhas da cinebiografia. "A principal tentação é tentar incluir tudo. Mas o que precisamos é de uma ideia radical." Talvez seja por isso que nunca vemos Gould tocando piano, apesar de Girard dizer que houve um motivo prático.

"Não sabia como mostrar o distinto estilo de tocar de Gould, e assim decidi não mostrar nada. Como faríamos, por exemplo, para conseguir que um ator jogasse tênis tão bem quanto Rafael Nadal? Seria impossível. Meu conselho para quem desejar fazer um filme sobre Nadal é: fique longe das quadras de tênis."

Oren Moverman, corroteirista de Não Estou Lá, aprecia a maior liberdade criativa. "As cinebiografias podem ter obsessão pela autenticidade, mas nosso filme mente o tempo todo. O nome dele nem sequer é mencionado. Compreendo quem se queixe de não ter aprendido nada sobre Dylan com o filme, mas acho que isso é mais fiel à própria experiência de tentar compreendê-lo."

Cottrell Boyce cita o filme de Girard como um de seus favoritos. "Ele nos diz muito a respeito de Glenn Gould e celebra a música dele, mas conclui basicamente que cada um de nós é um continente perdido e que ninguém dispõe de um mapa. Para as cinebiografias, é importante desafiar a ideia de uma interpretação fixa. Não há uma verdade definitiva a respeito de um ser humano." TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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