Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Cineasta Werner Herzog participa de festival no Brasil

Para o diretor de 'Fitzcarraldo' e 'Into the Abyss', não existe território mais fascinante e obscuro que a mente humana

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo ,

22 de novembro de 2012 | 02h09

RIO - Num festival que privilegia o cinema de autor e busca novas plataformas de distribuição e exibição - a internet -, Werner Herzog sente-se ao mesmo tempo em casa e em terra estranha. "Não tenho Facebook nem Twitter, mas acho fascinante que este festival (4 + 1), que ocorre em cinco cidades, possa ser acompanhado simultanemente na internet, em qualquer lugar do mundo."

Ele se define como o cineasta que filmou em todos os continentes - até nas neves eternas. Nunca deixou de ser alemão. "Carrego a Bavária comigo, onde quer que esteja." O importante é que as novas mídias e plataformas não destruam o que há de mais elementar e fascinante no cinema. E o que é isso? "The storytelling", a arte de contar histórias, ele diz, na entrevista realizada no prédio do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio.

Com sua experiência de décadas, como identifica a história que vale a pena ser contada?

Werner Herzog - É difícil de explicar, mas fácil de averiguar. Você lê um livro e, intuitivamente, sabe se a história é boa. No cinema é igual. Com raras exceções, escrevo meus roteiros e seleciono as histórias. Não sou contra efeitos especiais. Há um tipo de história, como a de Avatar (James Cameron) ou a de Parque dos Dinossauros (Steven Spielberg), que só pode ser contada graças à estética dos efeitos. Meus filmes não. Não creio que nenhum deles pudesse ser refeito com efeitos ou em 3-D. Quando usei 3-D, o que eu queria mostrar, em The Cave of Forgotten Dreams, assim o exigia.

E o que era?

Werner Herzog - Filmei no interior de uma caverna na França. As pinturas mais primitivas já feitas pelo homem. As paredes da caverna não são planas. Aqueles ancestrais pintaram na pedra, usaram a conformação particular, o formato arredondado, uma ponta abrupta, para ressaltar a dramaticidade das cenas cotidianas que reproduziam. O formato 2-D não faria justiça àquela maravilha, foi preciso o 3-D.

O que são, para você, exemplos de boa narração?

Werner Herzog - Não sou eu que digo. Perguntaram a um dos irmãos Warner qual o ingrediente fundamental para um grande filme. Ele disse que eram três: a história, a história e a história. Há um cinema do passado que oferece exemplos superiores de narração. Filmes como Casablanca (de Michael Curtiz), O Tesouro de Sierra Madre (John Huston) e Viva Zapata (Elia Kazan).

E no cinema atual, existe algum autor ou cinematografia que lhe interesse particularmente?

Werner Herzog - Países como Irã, Áustria, Coreia do Norte e Romênia possuem cinemas interessantes. Admiro Abbas Kiarostami, especialmente o de 20 anos atrás, da época de Onde Está a Casa de Meu Irmão?. Abbas é grande e não se pode falar na renovação estética e na busca por novas técnicas e estilos de narração sem encarar Close-Up, que é um grande filme.

Você consegue visualizar o cinema daqui a dez anos?

Werner Herzog - Não faço ideia de como será, mas tenho a impressão de que o público vai acabar se saturando de efeitos e a solução será o retorno a histórias fortes, a personagens intensos.

Encontrei Claudia Cardinale, há duas, três semanas, e ela lembrou de Fitzcarraldo como uma das grandes experiências da vida dela. Que lembrança você tem daquele filme que fez no Brasil?

Werner Herzog - Só para corrigir, filmamos na maior parte do tempo na Amazônia peruana. Apenas as cenas do teatro, em Manaus, foram feitas no Brasil. Quando me lembro de Fitzcarraldo, a palavra imediatamente associada é 'catástrofe'. Nunca tive filmagem tão conturbada na minha vida. Tive de mudar o ator (Klaus Kinski substituiu Jason Robards), o equipamento foi roubado, tivemos dois acidentes de avião - ninguém morreu, mas houve feridos. Tudo sombrio e até trágico, mas também me lembro dos momentos luminosos, e eles passam por Claudia. O importante é que, apesar de tudo, o filme saiu grande, e isso eu não consigo explicar.

Seus personagens são loucos, desmedidos, maiores que a vida. O que o atrai nessas figuras?

Werner Herzog - Aguirre, Kaspar Hauser, Fitzcarraldo, mas também o condenado à morte de Into the Abyss. Acho que, no limite, o que me atrai no cinema é a tentativa de compreender e investigar o abismo da alma humana. Você pode dar a volta ao mundo, não há território mais virgem nem fascinante que a mente humana. Entrevistar aquele condenado à morte. Minha dificuldade foi encontrar uma voz para falar com ele. Com dois minutos de filmagem, eu lhe disse que o fato de estar ali não significava que tivesse de ter simpatia por ele nem que a agenda do filme fosse combater a pena de morte. Para isso, ele dispunha de advogados, de outros foros. Meu interesse era outro. Ele parou. Nunca ninguém havia falado com ele daquele jeito. O filme poderia ter acabado ali, mas ele continuou. Acho que é um dos grandes momentos da minha carreira - da minha vida. Esse respeito na diversidade e até no antagonismo.

Fala-se muito da sua parceria com Klaus Kinski. Foi o maior ator com quem trabalhou?

Werner Herzog - Não, talvez o segundo, embora Nicholas Cage também tenha sido muito bom e Tom Cruise, com quem acabo de contracenar, seja o cara mais curioso e profissional que já conheci nesse meio. Fala-se muito na minha relação de amor e ódio com Klaus. Nunca houve isso, embora muitas vezes eu tenha querido matá-lo e sei que ele queria me matar também. Aprendi muito com ele e ele comigo, mas tenho certeza de que ele não o admitiria. Havia algo na nossa relação que nos permitiu fazer filmes extraordinários. A gente se impulsionava a ir ao limite, é isso. Mas o maior ator com quem trabalhei, o mais visceral, nem era ator. Foi Bruno S, com quem fiz O Enigma de Kaspar Hauser.

Você tem vindo muito aqui. O que o País representa para você?

Werner Herzog - O Brasil não é um país, são muitos. A Amazônia, o Nordeste, que tanto me fascina, o Rio, glorioso. Meu sentimento pelo Brasil é de orgulho. Lula da Silva fez este País maior e vocês têm agora uma presidenta que merece todo respeito. Vêm aí a Copa do Mundo, a Olimpíada. Gostaria de ser jogador de futebol, até como homenagem à grandeza de vocês. Encontrei-me ontem (terça-feira) com Ruy Guerra, com quem fiz Aguirre. Somos como irmãos, a gente não se vê durante anos e quando se reencontra, parece que foi ontem. Ruy me disse que há um novo cinema brasileiro, pujante e fascinante, mas que ainda precisa ser descoberto. Mais motivo de orgulho. E o 4 + 1 aponta para novas plataformas levando à descoberta desses artistas.

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