Cineasta Sergio Rezende estreia na TV com série sobre família

Com treze episódios, 'Assunto de Família' estreia em abril e é símbolo de fluxo de profissionais para o mundo das séries

João Fernando / RIO, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 22h00

A jornada de 12 horas de trabalho acabou de começar e está programada para seguir madrugada adentro, em uma casa na zona sul do Rio. Entre os integrantes da equipe, cujas idades giram em torno dos 30 anos, quem está mais animado é o diretor Sergio Rezende, 62, que anda de um lado para o outro para dar seu aval a seus assistentes. Com três décadas de cinema e títulos como O Homem da Capa Preta, Guerra de Canudos e Zuzu Angel no currículo, ele vive dias de calouro no set de Assunto de Família, sua primeira série de televisão, com estreia marcada para 9 de abril, no GNT.

“A diferença da TV para o cinema é que esses caras não fumam. Vão ter de me aturar”, brinca ao mostrar o maço de cigarros quase vazio. Além da direção, Rezende também assina o roteiro da atração, escrito em parceria com Rodrigo Lages. A trama gira em torno do juiz da vara de família Pedro, interpretado por Eduardo Moscovis. Além de se ocupar com os dramas em casa, o personagem passa as horas longe do fórum investigando a fundo as famílias dos casos que lida.

“Li um estudo sobre esse negócio de séries. Em geral, os protagonistas são de três profissões: médico, advogado ou policial. É uma tradição. Eles atuam sobre a vida das pessoas, têm um poder sobre a sociedade”, analisa ele, que já tinha vontade de executar um projeto sobre o universo dos tribunais. “Essa questão vem ganhado foco no Brasil. Há uma carência de justiça por causa da impunidade."

 

A atração, porém, não ficará restrita às audiências no fórum. “Ele é um cara que é juiz entre outras coisas. Ele tem o hábito heterodoxo de investigar quem está julgando e tem os conflitos do ser humano”, explica. Um dos fios condutores da série é morte do pai de Pedro, que ele vê de longe, através da fresta da porta do quarto de hospital. Desconfiado de que se tratou de um crime, ele começa a investigar por conta própria se alguém provocou o fato. Um dos suspeitos é seu irmão Marcos (Iano Salomão), que vive internado em uma clínica de reabilitação.

Com 13 episódios de meia hora, sem intervalos, Assunto de Família ousa por ter cerca de 80 personagens e 70 locações. O tempo de gravação, porém, é o mesmo de um filme. “O roteiro de um longa tem, em média, 100 páginas. O da série tem 350 e fazemos no mesmo tempo, três vezes mais. Para ser feito mais rápido, já gravo com duas câmeras. O negócio foi formar uma equipe de TV. Chamei a turma que já vinha trabalhando com a Julia”, diz, citando sua filha, Julia Rezende, diretora de Meu Passado me Condena, exibida pelo Multishow.

Acostumado a grandes produções, Rezende teve de se adaptar às restrições da TV, com orçamento menor. “Tem de criar sob pressão. E a pressão aguça a sensibilidade, estimula a encontrar gás extra que a gente achava que não tinha.”

Outra limitação foi a escalação do elenco, que tem nomes como Silvia Buarque, Ernani Moraes, Suely Franco e Eduardo Galvão. “Está havendo uma demanda brutal por conteúdo. Há o problema contratual, está difícil formar elenco. Alguns estão na Globo, a Record não autoriza mais (para a Globosat) e, nos canais pagos há competição. Para mim, o problema virou uma solução: trabalhar com atores de teatro.”

Em meio ao aumento do número de séries brasileiras, o cineasta afirma que é preciso inovar em vez de reproduzir. “Não é uma linha de produção, é trabalho artesanal. Debaixo da pressão, temos de fugir de um formato para não ficar careta”, defende. Para ele, trocar a telona pela telinha é lutar ainda mais para prender o espectador. “No cinema, você tranca o cara e joga a chave fora. Na TV, a chave está na mão dele, é o controle remoto. Você tem de ser dinâmico, gritar o tempo todo."

Profissionais do cinema migram para TV

A tendência das séries norte-americanas em atrair estrelas do cinema está se refletindo no mercado brasileiro. Por aqui, figuras fáceis da telona e das novelas têm começado a atuar em séries, como nos EUA. A terceira temporada de Sessão de Terapia, prevista para este ano no GNT, terá Camila Pitanga no elenco. No ano passado, Heitor Dhalia, diretor de À Deriva, comandará a O Grampo, no TNT. A Teia, atualmente no ar na Globo, foi escrita por Braulio Mantovani e Carolina Kotscho, respectivamente os roteiristas dos longas Cidade de Deus e 2 Filhos de Francisco.

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