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Cineasta Julian Temple comenta o atual cenário musical

Diretor de 'Absolute Beginners' diz que música hoje vive de nostalgia e reciclagem e não o interessa tanto

JOTABÊ MEDEIROS - O Estado de S.Paulo,

23 de maio de 2012 | 03h09

Absolute Beginners foi, para a Inglaterra, o equivalente a Ruas de Fogo para os americanos. Um filme inicialmente rejeitado que vai sendo redescoberto aos poucos, e logo é aceito como retrato de um período e de suas aspirações.

Baseado em livro de Colin MacInnes, o musical de Julian Temple parecia anacrônico em sua alegoria dos anos 1950, mas era apenas uma antevisão de anacronismos. Aos 59 anos, Julian Temple começou na vida filmando os primeiros shows dos Sex Pistols e nunca parou de fazer filmes.

Você tem um projeto de um filme sobre o Rio de Janeiro, que integraria a série Children of the Revolution. Já começou a filmar?

Ainda não. Estivemos visitando o Rio para escolher locações. A série é sobre cidades musicais, centros urbanos cuja história social seja permeada pela música, cujo desenvolvimento tenha se dado com o desenvolvimento musical. Escolhi algumas delas, como Detroit, nos Estados Unidos, e Londres. O Rio é uma das mais ricas cidades, musicalmente falando, do mundo. Pensei em partir de um grande evento musical, mas dei uma olhada no Rock in Rio e não acho que conte uma história da cidade. Estive também nos bailes funk, fui a algumas favelas. Estou mapeando o caminho.

Você está na origem do termo rockumentary, o documentário de rock. Mas seu primeiro filme do gênero, Absolute Beginners, foi um fracasso de bilheteria quando estreou, não foi?

Na Inglaterra foi. Na França e na Espanha foi bem. De qualquer modo, não faço filmes para fazer dinheiro, mas simplesmente porque é meu trabalho. Não fui para os Estados Unidos fazer filmes para poder desfrutar de uma jacuzzi em Hollywood. É claro que fiquei um pouco deprimido naquela época, o filme é parte da minha carreira. Creio que ele descreve muito bem como era a vida naquele período em Londres e sou feliz com o seu sucesso posterior, a reavaliação, mas ainda tenho problemas com ele. Não é perfeito. Era ambicioso e funcionou, e visualmente é muito poderoso. Vem do coração, isso eu posso dizer. Sempre faço meus filmes como manifestos pessoais.

Você examinou no cinema os Sex Pistols, o glam rock, o Clash. Não tem interesse em astros britânicos mais contemporâneos, como os irmãos Gallagher ou Amy Winehouse?

Em primeiro lugar, eu me interesso pela música. Acho que a Amy Winehouse é de fato fascinante do ponto de vista humano, mas não me ligo tanto no soul revivalista que ela escolheu. Penso que não há uma música realmente nova, só reciclagem. Eu sempre escolho a música que considero nova, que gera respostas sociais, que transmite uma poderosa energia.

Você abriu um caminho, mas hoje em dia há outros cineastas fazendo coisas opostas ao que você fez. Um exemplo é Todd Haynes, diretor de Não Estou Lá, sobre o Bob Dylan. Gosta do estilo dele?

Não estou certo se o filme do Dylan é um dos meus favoritos. Tem seu valor como obra experimental, mas não sei se gosto da ideia. Prefiro mais Scorsese filmando rock.

Parte da avaliação que se tem do produtor Malcolm McLaren veio de sua forma de examinar a participação dele nos eventos culturais de Londres nos anos 1970. No final, ele era um picareta ou um gênio?

Acho que ele era ambos. Ele podia combinar genialidade com tolice, alternar esperteza e estupidez em poucos minutos. Também era um homem intrigante, uma figura fascinante. Foi muito útil na época, fez com que muitos artistas explorassem suas capacidades e potencialidades e foi um pensador original, porque foi o primeiro a ser irônico com os meios de comunicação, a usar essa ironia em proveito próprio. Acho que ele ainda é o responsável por muito do que acontece na cultura inglesa de hoje em dia.

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