Pier Paolo Pasolini fez de sua arte instrumento de luta e transformação

Desde os filmes da primeira fase, Pasolini incomodava, com 'Mamma Roma' e 'Accatone', obras de forte crítica social

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2015 | 03h00

Pier Paolo Pasolini pertence a essa rara estirpe de cineastas que são tanto artistas quanto ativistas sociais. Quer dizer, fazem de sua arte não um fim em si, mas instrumentos de luta e transformação. Intervêm na sociedade em que vivem tanto por meio dos seus filmes, como através de textos, poesias, teatro, artigos, ensaios e outros meios de expressão, como entrevistas. Estão sempre na crista da onda, ditando direções e nunca seguindo tendências.

Quem quiser ter alguma ideia do que foi o trabalho de intervenção política e cultural de Pasolini através da palavra deve procurar uma edição antiga dos seus Escritos Corsários, editados pela Brasiliense e hoje encontráveis apenas em sebos. Neles, Pasolini debatia temas da sua atualidade, fustigava a “italianidade” e, heresia vinda de homem de esquerda, dizia estar mais do lado dos policiais que dos estudantes da Sorbonne no Maio de 68 francês. Os flics (tiras, em francês), ao menos, vinham do proletariado e não da burguesia, como os estudantes que montavam barricadas no Quartier Latin.

Seu cinema, afinal sua modalidade de expressão melhor em meio a tanta versatilidade, é testemunho desse espírito inconformista. Desde os filmes da primeira fase, Pasolini incomodava, com Mamma Roma e Accatone, obras de forte crítica social. Seu Jesus revolucionário de O Evangelho Segundo Mateus ia na mesma direção, questionando o caráter conservador da Igreja contemporânea e voltando a um cristianismo puro, que tinha muito a ver com a ideia de um comunismo primitivo. Pasolini observava também a permanência do arcaico no moderno, buscando o mito, como em Édipo Rei e Medeia.

Suas quatro últimas obras cinematográficas são testemunhos de uma trajetória de crescente exasperação sociais. As três primeiras, Cantos de Canterbury, Decamerão e As Mil e uma Noites, são como afirmações da vida e do sexo como fontes de felicidade. A quarta (Salò, ou 120 Dias de Sodoma), baseada em Sade, recoloca o fascismo no meio do debate.

Um filme desagradável, no limite do tolerável, feito para chocar e se colocar ao arrepio do bom gosto dominante, ilustra a tese central do último Pasolini. Para ele, o fascismo da época de Mussolini seria refresco se comparado ao que se anunciava com a nascente sociedade de consumo. Pasolini morreu em 1975. O que diria se tivesse sobrevivido até os nossos dias?

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