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Cineasta em transe

Há 30 anos morria Glauber Rocha, um dos mais marcantes diretores da produção nacional

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2011 | 00h00

Há 30 anos, dia 22 de agosto de 1981, pouco depois de voltar doente de Portugal, Glauber Rocha morria no Rio de Janeiro. Tinha 42 anos. Seu desaparecimento precoce causou comoção. Afinal, acabava de falecer, ainda jovem, aquele que, se desconfiava, seria o nome mais marcante entre os cineastas brasileiros.

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Na hora, falou-se em assassinato cultural pois Glauber saíra do País em 1969, com o acirramento da ditadura, e teve de fazer vários de seus filmes no exterior. Não se economizaram também críticas da esquerda, à qual o próprio diretor pertencia, pela intolerância com que havia recebido sua proposta de pacto com os militares.

Sim, porque o mesmo Glauber que lutara contra o regime, afirmava ser necessário conversar com os donos do poder, única forma, a seu ver, de iniciar um processo seguro de transição democrática. À sua maneira hiperbólica, chamou o general Golbery do Couto e Silva, chefe do gabinete civil dos governos Ernesto Geisel e João Figueiredo, de "gênio da raça", para irritação dos opositores.

Glauber era assim mesmo. Um brilhante e destemido provocador, agitador de ideias nato. Um profeta. E, como dele disse um dos seus amigos, o maior ensaísta do cinema brasileiro, Paulo Emilio Salles Gomes, "Um profeta não tem obrigação de acertar; tem obrigação de profetizar. Isto é, de movimentar ideias que, mesmo sem terem a precisão de um teorema, interferem na cultura, fazem as pessoas pensar, por adesão ou reação." Isso, Glauber Rocha fez como ninguém desde que entrou em cena no panorama cultural brasileiro.

Sua trajetória cinematográfica foi fulminante. De crítico de cinema em Salvador, passa a diretor de um curta ainda um tanto formalista, O Pátio (1959), realizado com sua mulher, Helena Ignez. Pega uma produção pela metade, em andamento, e a ela imprime sua assinatura. Barravento (1961) foi esse primeiro longa, marco inicial de uma série que formaria o cânone do cinema de invenção brasileiro. No centro deste, as duas obras-primas, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967), expressões barrocas sobre o projeto revolucionário e o fim do sonho.

Ao lado delas, Câncer (1967), precursor, talvez, do cinema dito marginal, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1968), o mais popular entre todos seus filmes. Em seguida, as obras feitas no exterior: O Leão de Sete Cabeças (1970), Cabeças Cortadas (1971), História do Brasil (codireção com Marcos Medeiros, 1974) e Claro (1975). Na volta ao Brasil, o insólito, paradoxal e dilacerado Idade da Terra (1981), seu testamento cinematográfico.

Uma obra enxuta, breve, que ainda não terminou de produzir reinterpretações. Sobre um filme em particular, Terra em Transe, o cineasta Cacá Diegues cunhou boutade interessante: ''É o maior sucesso do cinema brasileiro, pois está até hoje em cartaz. Talvez se pudesse dizer a mesma coisa a respeito do conjunto do legado de Glauber.

Pois, digam o que disserem, Glauber continua em cena, com sua obra, a lembrança de sua presença frenética, seu projeto utópico, seus textos e contradições. Questões estéticas à parte, uma obra forjada a partir da indignação diante de um mundo visto como iníquo. "Era o mais indignado entre nós", disse Darcy Ribeiro no enterro de Glauber, "e vivia entre a esperança e o desespero". Quem não entender essa polaridade alucinada não entende Glauber, e muito menos o tempo em que viveu. Era um homem da Guerra Fria, das revoluções, da política e da invenção estética, das ditaduras latino-americanas e da Tricontinental. São circunstâncias históricas, que não se apagam. Por outro lado, vai muito além de tudo isso.

Glauber foi contestado ainda em vida, e por críticas vindas de direções opostas e contraditórias. Do lado conservador, não toleravam sua presença anárquica e a estética de ruptura. A esquerda ortodoxa passou a condenar suas posições políticas de diálogo com a ditadura. Grupos mais radicais, como os que formaram o chamado Cinema Marginal, falavam de acomodação estética do Cinema Novo, do qual Glauber era o representante maior.

Morto, tornou-se referência, às vezes incômoda. O estilo, tão particular, que, imitado, vira pastiche. Por outro lado, seu prestígio inabalável, na crítica brasileira e internacional, fez dele indesejado ideal do ego do cinema brasileiro, impossível de ser alcançado. Por isso tudo, o mito precisava ser destronado. Ou ignorado. Em vão. Logo se percebeu que era incontornável. Sua figura de artista renovador e intelectual, imerso nas contradições de seu tempo, serve, não como modelo, pois inimitável. Não precisa ser um fardo, e nem um modelo, mas pode ser fonte permanente de inspiração.

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